Lesões nas mãos lideram afastamentos no trabalho no Brasil

Condições como túnel do carpo, tendinites e fraturas de punho crescem em ritmo acelerado no país, mas diagnóstico tardio ainda é regra entre a maioria dos pacientes

Fonte: Assessoria

Em 2024, mais de 101 mil brasileiros foram afastados do trabalho por fraturas na mão e no punho, segundo dados do Ministério da Previdência Social. O número representa um salto de 24,7% em relação ao ano anterior e coloca esse tipo de lesão entre as dez principais causas de afastamento no país. Para quem depende das mãos como principal instrumento de trabalho, o dado é mais do que uma estatística: é um alerta.

O problema, porém, vai além das fraturas. Condições como a síndrome do túnel do carpo, tendinites, tenossinovites e artrose nas articulações dos dedos afetam uma parcela significativa da população.

São doenças que, na maioria dos casos, começam de forma discreta, com dormência, formigamento ou uma dor que aparece e some. E que, justamente por isso, costumam ser ignoradas até que o quadro se torne grave.

No Maranhão, onde São Luís concentra o maior volume de notificações de acidentes de trabalho do estado, com 1.900 ocorrências registradas apenas em 2022, o cenário segue a tendência nacional.

A construção civil e o setor de serviços respondem por boa parte dos casos, mas o problema atinge também profissionais de escritório, comerciantes, operadores de máquinas e trabalhadores informais.

O que os números mostram sobre a saúde das mãos no Brasil

O Ministério da Previdência Social aponta que, entre fraturas, amputações, ferimentos, esmagamentos e lesões de nervos na região da mão e do punho, foram concedidos 27.477 benefícios acidentários em 2023, alta de 8,4% sobre o ano anterior.

As fraturas distais do rádio, que atingem a região do punho, respondem por 10% a 20% dos atendimentos em serviços de traumatologia e são as mais frequentes em todo o corpo humano.

Somam-se a isso os afastamentos por doenças de origem repetitiva. A síndrome do túnel do carpo, sozinha, foi responsável por afastar 24.002 trabalhadores em 2023, um crescimento de 33% em relação ao ano anterior, conforme levantamento da Previdência Social.

A sinovite e a tenossinovite, inflamações que atingem articulações e bainhas dos tendões, provocaram outros 6.922 afastamentos no mesmo período, alta de quase 21%.

“A soma desses números revela uma realidade que vai muito além do desconforto passageiro. Quando não tratadas a tempo, essas condições podem evoluir para incapacidade permanente, perda de força, atrofia muscular e necessidade de cirurgia”, adverte Dr. Henrique Bufaiçal, médico ortopedista de mãos em Goiânia.

Quando a dor nas mãos deixa de ser passageira

A maioria das pessoas que desenvolve uma doença nas mãos passa meses, às vezes anos, sem procurar ajuda especializada. A lógica costuma ser a mesma: a dor aparece, a pessoa descansa por alguns dias, o incômodo diminui e o problema parece ter sido resolvido. Até que volta, mais intenso.

A síndrome do túnel do carpo é um exemplo clássico desse padrão. Ela ocorre quando o nervo mediano, que passa por um canal estreito na região do punho, é comprimido por inflamação dos tendões ao redor. Os sintomas mais comuns são dormência e formigamento nos dedos, sobretudo polegar, indicador e médio, com piora durante a noite ou ao acordar.

Estudos publicados no SciELO indicam que a prevalência varia de 51 a 125 casos por 100 mil habitantes, com incidência maior entre mulheres de 40 a 60 anos. Outros levantamentos apontam prevalência de até 9,2% entre mulheres e 0,6% entre homens, segundo dados da Revista Brasileira de Ortopedia.

Profissões que exigem movimentos repetitivos das mãos estão entre as mais expostas. Digitadores, operadores de linha de montagem, costureiras, caixas de supermercado, músicos e trabalhadores da construção civil dividem um risco em comum: a sobrecarga contínua sobre as mesmas articulações, sem pausas ou sem ergonomia adequada.

O que muita gente desconhece é que o uso prolongado de celulares também contribui para o agravamento dessas condições. A Sociedade Brasileira de Cirurgia da Mão alertou em 2025 que, nos últimos cinco anos, o SUS registrou 10.688 atendimentos infantojuvenis por dores nas mãos, com possível relação com o uso excessivo de dispositivos eletrônicos.

Entre idosos, a entidade também identificou risco elevado: a faixa etária acima de 60 anos foi a que mais aumentou o percentual de uso da internet nos últimos anos, e a repetição de movimentos com os dedos em telas pode acelerar o desgaste articular.

O papel do diagnóstico precoce na preservação das mãos

Há um consenso entre ortopedistas: o tratamento precoce de lesões nas mãos muda o prognóstico do paciente. Quando a síndrome do túnel do carpo é identificada no início, por exemplo, o tratamento conservador com uso de talas, ajustes ergonômicos e fisioterapia costuma ser suficiente.

Quando o diagnóstico demora, a compressão do nervo pode causar atrofia muscular na base do polegar, com perda irreversível de força e sensibilidade. Nessa fase, a cirurgia de descompressão passa a ser a única alternativa viável.

O mesmo raciocínio vale para fraturas de punho. As chamadas fraturas de Colles, causadas quando a pessoa estende a mão para amortecer uma queda, são tratáveis com imobilização simples quando identificadas logo. Mas, se houver desvio ósseo não corrigido, o resultado pode ser deformidade permanente, limitação de movimento e dor crônica.

A orientação da Sociedade Brasileira de Cirurgia da Mão é clara: buscar um especialista em mãos ao primeiro sinal de desconforto persistente é o que separa um tratamento simples de um quadro que exige cirurgia.

A avaliação inclui exame clínico, testes de compressão nervosa e, quando necessário, eletroneuromiografia para medir a velocidade de condução do nervo e confirmar o grau de comprometimento.

O que está por trás do aumento de casos no Brasil

Três fatores explicam o crescimento acelerado de lesões e doenças nas mãos entre brasileiros. O primeiro é a mudança no perfil do trabalho. Com a expansão do trabalho remoto e do uso de dispositivos digitais, aumentou a exposição a movimentos repetitivos sem supervisão ergonômica.

Boa parte dos trabalhadores que migraram para o home office durante a pandemia manteve postos improvisados, com teclados, mouses e cadeiras inadequados.

O segundo fator é o envelhecimento da força de trabalho. A osteoporose, mais prevalente entre mulheres após a menopausa, torna os ossos da mão e do punho mais vulneráveis a fraturas. E a artrose, processo de desgaste articular que avança com a idade, compromete progressivamente a mobilidade dos dedos.

O terceiro fator, e talvez o mais preocupante, é a cultura de adiar a consulta médica. No Maranhão, dados do Ministério Público do Trabalho apontam que a subnotificação de acidentes de trabalho continua sendo um problema grave.

Muitos trabalhadores sofrem lesões nas mãos, recebem orientação informal e não buscam atendimento especializado. Quando procuram ajuda, o quadro já avançou.

Na Justiça do Trabalho do estado, o número de ações relacionadas a acidentes de trabalho cresceu 32,78% em 2023, sinal de que parte desses casos só chega ao sistema quando o dano já está consolidado.

O que considerar ao buscar atendimento

De acordo com a equipe de profissionais do COE Goiânia, centro de ortopedia especializada, a cirurgia da mão é uma subespecialidade da ortopedia. Isso significa que nem todo ortopedista tem formação específica para tratar doenças e lesões nessa região.

A mão reúne 27 ossos, dezenas de tendões, ligamentos, nervos e vasos em uma estrutura compacta. Qualquer intervenção, conservadora ou cirúrgica, exige conhecimento detalhado dessa anatomia.

Ao escolher um profissional, vale verificar se ele possui título de especialista reconhecido pela Sociedade Brasileira de Cirurgia da Mão. A formação específica em cirurgia da mão envolve, além da residência em ortopedia, um período adicional de treinamento dedicado exclusivamente a essa área.

Centros de referência no Brasil e no exterior, como o Instituto Europeu de Cirurgia da Mão, na França, formam profissionais com esse nível de especialização.

O volume de atendimentos e o vínculo com instituições de ensino e pesquisa também são indicadores relevantes. Médicos que atuam em centros de referência e participam de programas de residência tendem a estar atualizados com as melhores práticas e técnicas disponíveis.

O custo da demora para o sistema de saúde

De acordo com dados da Organização Internacional do Trabalho, afastamentos causados por doenças e acidentes de trabalho representam perda média anual de 4% do PIB mundial.

No Brasil, essa porcentagem equivale a cerca de R$ 468 bilhões por ano, considerando o PIB de 2024. O Observatório de Segurança e Saúde no Trabalho estima que, desde 2012, mais de meio bilhão de dias de trabalho foram perdidos por conta de afastamentos previdenciários acidentários.

Fraturas nas mãos e nos punhos respondem por uma fatia expressiva desses números. Em 2024, 60% dos afastamentos acidentários por incapacidade temporária tiveram origem em fraturas, que já ultrapassaram 1 milhão de ocorrências na série histórica iniciada em 2012. As fraturas de punho e mão são predominantes nesse grupo.

Para o trabalhador, a consequência direta é a perda de renda durante o período de recuperação. Para o empregador, o custo vem na forma de substituição de mão de obra, queda de produtividade e risco de ações judiciais. Para o sistema previdenciário, significa mais benefícios concedidos e maior pressão sobre o orçamento público.

A prevenção, nesse cenário, não é apenas uma questão de saúde individual. É uma questão econômica. Segundo um ortopedista especialista em Goiânia, medidas simples como pausas regulares durante o trabalho, alongamentos das mãos e dos punhos, uso de equipamentos de proteção na construção civil e adaptações ergonômicas em postos de trabalho podem reduzir significativamente o risco de lesões.

O que fazer ao perceber os primeiros sinais

Alguns sintomas exigem avaliação rápida porque podem indicar fratura, lesão de nervo ou comprometimento vascular. Deformidade visível após trauma, dor intensa que não cede com repouso, dedo arroxeado ou frio, dormência súbita e perda de força para segurar objetos são sinais que não devem esperar.

Mas mesmo sintomas menos evidentes merecem atenção. Dormência noturna nas mãos, formigamento ao dirigir ou digitar, dificuldade para abrir tampas ou segurar um copo, e dor que aparece após atividades repetitivas são manifestações que, embora pareçam menores, podem sinalizar compressão nervosa ou inflamação em estágio inicial.

Em todos esses casos, a recomendação é procurar um médico com formação em cirurgia da mão. O diagnóstico correto na fase inicial reduz o tempo de tratamento, diminui a necessidade de procedimentos invasivos e preserva a funcionalidade que as mãos exigem para o trabalho e para as atividades do dia a dia.

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