O curso superior que mais cresce no Brasil não é medicina nem direito

Em dez anos, o ensino a distância passou de 26% para 73% dos novos alunos no Brasil. Entenda o que mudou e o que os dados revelam sobre o futuro da educação

Fonte: Da redação

O Brasil chegou a 10,23 milhões de estudantes matriculados no ensino superior em 2024, mas o dado que mais chama atenção no novo levantamento do Semesp não é o número de alunos — é a velocidade com que o ensino a distância tomou o lugar que era do curso noturno presencial.

Em 10 anos, a virada foi completa. Em 2014, o presencial noturno respondia por 53,2% dos ingressantes no ensino superior. A EAD representava menos de um terço. Hoje o cenário está invertido: o noturno caiu para 18,2% e a EAD alcançou 73,5% dos novos alunos. O trabalhador que antes saía do emprego direto para a sala de aula agora estuda no celular, no horário que consegue.

O movimento diz muito sobre quem são os estudantes brasileiros. Na EAD, apenas 26,1% têm até 24 anos. A maioria tem entre 30 e 49 anos — adultos que conciliam estudo, trabalho e, em muitos casos, família. No presencial, o perfil continua jovem: 61,9% dos matriculados na rede privada têm até 24 anos.

O setor privado domina esse mercado de forma absoluta. Responde por 79,8% de todas as matrículas do país e por 97,3% dos novos alunos da EAD. As instituições com fins lucrativos representam 58% das faculdades brasileiras e foram as principais responsáveis pela expansão da modalidade a distância, oferecendo mensalidades mais baixas e chegando a regiões onde não havia campus físico.

Entre os cursos, a área de Computação e Tecnologias da Informação foi a que mais cresceu. No presencial privado, o aumento foi de 9,2% entre 2023 e 2024. Na EAD, o crescimento chegou a 12,5%. A tecnologia puxa o interesse dos estudantes enquanto outras áreas perdem espaço.

Mas o crescimento tem um lado sombrio. A evasão na EAD atingiu 41,6% em 2024 — o maior índice da série histórica. Quase metade dos alunos que entram em cursos a distância não termina. No ensino presencial, o número já é preocupante: 24,8% de evasão total, com a rede privada chegando a 26,6%.

Para o sociólogo Simon Schwartzman, a expansão foi longe demais. Ele defende que o setor público deveria ampliar sua oferta de vagas de forma mais sistemática, em vez de deixar o crescimento do acesso inteiramente nas mãos do mercado privado. A professora Maria Ligia Barbosa aponta que as faculdades isoladas, apesar da retração dos últimos anos, ainda cumprem um papel difícil de substituir — especialmente na formação de professores e no atendimento a regiões distantes dos grandes centros.

O total de matrículas cresceu 2,5% em relação a 2023, ritmo menor que o do ano anterior. A desaceleração da EAD, que vinha crescendo forte, puxou os números para baixo. O Nordeste registrou crescimento de 3,2% nas matrículas, alinhado à média nacional.

Os dados são da 16ª edição do Mapa do Ensino Superior no Brasil, publicação anual do Instituto Semesp divulgada nesta quinta-feira.

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