
Uma investigação técnica conduzida pela Kroll apontou a participação de um procurador municipal de São Luís em uma operação financeira estruturada para aquisição de ações do Banco de Brasília. Segundo os documentos, Daniel de Faria Jerônimo Leite teria atuado como intermediário em um conjunto de movimentações envolvendo agentes ligados ao mercado financeiro.
De acordo com o relatório, o procurador contratou, em abril de 2025, um empréstimo de R$ 93,7 milhões junto a uma empresa de crédito vinculada à Reag Investimentos. A operação foi realizada com taxa equivalente a 140% do CDI e teve como finalidade a aquisição de participação em um fundo que, por sua vez, havia adquirido ativos de outro veículo financeiro. Ao fim desse encadeamento, o procurador passou a deter cerca de 2,2% das ações do banco.
O caso integra uma ação judicial movida pelo próprio banco, que sustenta que diversos fundos, empresas e pessoas físicas teriam atuado de forma coordenada para assumir participação acionária de maneira fragmentada, sem transparência sobre os beneficiários finais. A estratégia, segundo a petição, teria permitido o acesso a novas rodadas de capital e a operações envolvendo carteiras de crédito com problemas ou sem lastro identificado.
A análise da Kroll também levanta a hipótese de “circularidade de recursos”. Nesse modelo, o dinheiro obtido por meio do empréstimo teria retornado ao próprio ecossistema financeiro por meio de aplicações em instrumentos como CDBs, sem geração efetiva de valor econômico para o investidor. Segundo a consultoria, esse tipo de fluxo pode ser utilizado para mascarar a origem e o destino final dos recursos.
O banco questiona ainda a capacidade financeira do procurador para realizar um investimento dessa magnitude. Nos autos, consta que ele havia declarado anteriormente renda mensal de R$ 35 mil e patrimônio de aproximadamente R$ 6 milhões ao Banco Central do Brasil. Em contestação, a defesa afirma que essas informações não refletem a realidade atual e sustenta que o investigado possui renda mensal de cerca de R$ 579 mil e patrimônio de R$ 75 milhões.
Como justificativa para a operação, o procurador alegou que a expectativa de retorno superava 20%, o que poderia representar ganho estimado de aproximadamente R$ 20 milhões. Para viabilizar o investimento, recorreu a financiamento por meio do Qista, braço de crédito da Reag.
Em fevereiro, o Tribunal de Justiça do Distrito Federal e dos Territórios determinou, em decisão liminar, o bloqueio das ações vinculadas aos investigados no processo. No caso do procurador, o volume de papéis correspondia a cerca de R$ 50 milhões na data da decisão, incluindo ações ordinárias e preferenciais.
As operações investigadas estão inseridas em dois aumentos de capital privado realizados pelo banco entre 2024 e 2025. Segundo o processo, parte dessas participações foi inicialmente adquirida por investidores já posicionados, sendo posteriormente transferida a fundos ligados a outros agentes do mercado.
O caso segue em análise na Justiça.