Trabalhar bem é chegar em casa bem

O Brasil registrou em 2025 mais de 546 mil afastamentos por transtornos mentais, com R$ 3,5 bilhões em custo previdenciário.

Fonte: Por Karla Barbosa

A relação entre arquitetura e saúde mental é tão antiga quanto o debate sobre saúde mental no trabalho. Neste mês, no dia 26 de maio, entra em vigor, a nível de penalizações, a atualização da NR-1, que obriga as organizações a mapear riscos psicossociais no mesmo programa formal em que sempre estiveram fatores como poeira, ruído industrial e exposição química. O Ministério do Trabalho orientou que essa gestão se faça em articulação com a NR-17, norma de ergonomia que trata da adaptação do ambiente ao corpo humano, ou seja, do terreno em que a arquitetura sempre pisou. Para quem projeta, a mudança normativa está trazendo o reconhecimento, em linguagem jurídica, de algo que qualquer projeto arquitetônico bem feito já considerava. O lugar onde se trabalha modula quem se é durante o trabalho.

Talvez algumas pessoas ainda estejam se perguntando o que a arquitetura tem a ver com a questão da saúde mental, mas o que posso apontar é que quem projeta aprende cedo a ler as repercussões do ambiente. Os parâmetros técnicos, como a parede que devolve som em vez de absorver, são os fatores que desenham, no acúmulo de meses e anos, a fisiologia de quem ocupa os edifícios. Ou seja, uma sala mal construída produz uma reunião de trabalho ruim. Um corredor sem janela produz atendimentos mais ríspidos. O servidor que passa o dia ali está com a regulação do próprio humor comprometida, e isso aparece nas conversas com colegas e até nas decisões técnicas que precisam ser tomadas.

O Brasil registrou em 2025 mais de 546 mil afastamentos por transtornos mentais, com R$ 3,5 bilhões em custo previdenciário. A curva motivou a atualização da NR-1, mas o que quero frisar é que há um efeito que não pode ficar de fora do debate. O corpo de quem passou oito horas num ambiente que mantém o sistema nervoso em alerta o tempo todo não desliga ao atravessar o portão do prédio. Esse estado de prontidão prolongada é o que a fisiologia chama de ativação sustentada, e ele continua funcionando depois do expediente. É esse corpo que chega em casa, cumprimenta a família, atende o filho e deita na cama para tentar dormir, muitas vezes sem sucesso.

Trabalhar bem é chegar em casa bem, e isso passa pelo que o edifício fez com quem esteve dentro dele durante o dia. Por isso, a leitura do parque público maranhense exige sensibilidade ao que se tem em mãos. Cada situação tem diagnóstico próprio, e reconhecer essa diferença é uma das partes principais do ofício.

Além disso, há um aspecto simbólico secundário que opera em conjunto a esses fatores. Um espaço bem projetado comunica respeito por quem trabalha ali. Quando uma instituição pública decide que o servidor merece cuidados como luz natural e acústica efetiva, ela passa uma mensagem sobre como entende o trabalho que ali se realiza. Esse tipo de informação mexe com a cultura institucional antes mesmo de aparecer em indicador de afastamento, e os dois movimentos se reforçam ao longo do tempo.

A norma que entra em vigor neste mês abre porta concreta para a arquitetura ocupar um lugar que sempre foi seu. O diagnóstico de risco psicossocial vai pedir leitura do ambiente construído, e leitura qualificada produz demanda por intervenção qualificada. O que se desenha daqui em diante tem escopo definido e pode começar pelos prédios em que o impacto sobre a vida dos servidores aparece com mais evidência. Esse é um trabalho necessário que cabe à gestão, e ele cabe dentro do orçamento público quando entra na hora certa do planejamento.

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Karla Barbosa, arquiteta e urbanista. Trabalha com projetos que entendem o ambiente construído como variável de bem-estar.

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