Aviação brasileira perde rotas desde a pandemia e enfrenta novos riscos

Brasil ainda opera com menos rotas que antes da pandemia e setor teme aumento da carga tributária

Fonte: Da redação

A recuperação da aviação comercial brasileira após os impactos da pandemia ainda não foi concluída e pode enfrentar novos obstáculos nos próximos anos. A avaliação é da Associação Internacional de Transporte Aéreo (Iata), que aponta o aumento dos custos com combustível e os possíveis efeitos da reforma tributária como fatores capazes de pressionar tarifas, reduzir investimentos e limitar a expansão da conectividade aérea no país.

Dados divulgados pela entidade mostram que o Brasil operou, em média, 774 rotas aéreas em 2025, número 9,9% inferior ao registrado em 2019, antes da crise sanitária global. Ao mesmo tempo, a oferta de assentos aumentou 4% no período, alcançando 145,3 milhões de lugares disponíveis. O cenário indica que, embora mais passageiros estejam viajando, parte da malha aérea perdeu frequência ou deixou de existir, reduzindo as opções de deslocamento em diversas regiões.

Durante a 82ª Assembleia Geral Anual da Iata, realizada no Rio de Janeiro, o vice-presidente regional da entidade para as Américas, Peter Cerdá, destacou a importância da aviação para um país com dimensões continentais como o Brasil. Segundo ele, a conectividade aérea desempenha papel estratégico para a integração econômica e social.

“A aviação não é um luxo. É um serviço essencial para o desenvolvimento da nossa região. Para o Brasil, um dos maiores países do mundo, a conectividade aérea é vital”, afirmou.

Os números mostram que o mercado brasileiro avançou pouco em termos de utilização do transporte aéreo na última década. Em 2015, a média era de 0,47 viagem aérea por habitante ao ano. Em 2025, esse indicador alcançou 0,50 voo per capita, permanecendo abaixo da média da América Latina, de 0,68. Em mercados mais maduros, a diferença é ainda mais significativa: os Estados Unidos registram 2,61 voos por habitante ao ano, o Canadá 2,49 e o México 0,86.

Entre as principais preocupações do setor está a recente disparada dos preços dos combustíveis, impulsionada pelas tensões geopolíticas envolvendo o Irã e os impactos sobre o mercado internacional de petróleo. Atualmente, o combustível representa cerca de 40% dos custos operacionais das companhias aéreas.

“Hoje, a aviação enfrenta um vento contrário forte, especialmente no lado do combustível, em que fatores estruturais estão afetando a indústria”, afirmou Cerdá. Segundo ele, a volatilidade dos preços aumenta os custos das empresas, reduz a capacidade de investimento e pode levar a uma diminuição da conectividade oferecida aos passageiros.

Além do cenário energético, a reforma tributária brasileira também preocupa as empresas do setor. Um estudo elaborado pela Iata aponta que, caso a tributação seja implementada conforme o modelo atualmente aprovado, os preços das passagens poderão registrar aumentos expressivos.

Segundo as estimativas da entidade, considerando uma alíquota de 26,5%, o valor médio das passagens domésticas poderá subir de US$ 130 para US$ 160. Já os bilhetes internacionais poderiam avançar de US$ 740 para US$ 935.

Atualmente, as passagens aéreas domésticas são tributadas em aproximadamente 9%, enquanto os bilhetes internacionais não sofrem incidência tributária direta. Com a nova estrutura tributária, ambos os segmentos deverão enfrentar aumento da carga fiscal, embora a aviação regional tenha previsão de tratamento diferenciado por meio de uma alíquota reduzida, cuja regulamentação ainda será definida.

A perspectiva de aumento dos tributos tem levado representantes do setor a intensificar o diálogo com autoridades brasileiras. Segundo Cerdá, a Agência Nacional de Aviação Civil (Anac) tem atuado como parceira nas discussões voltadas à defesa da competitividade da indústria aérea.

“A Anac tem sido uma grande parceira no lado regulatório na direção de tentar fazer o governo entender o tema”, afirmou.

As companhias aéreas internacionais também ampliaram as negociações com o governo brasileiro diante da preocupação com os possíveis impactos da reforma sobre a demanda e sobre a competitividade do mercado nacional.

Para a Iata, a combinação entre custos operacionais mais elevados e aumento da tributação pode comprometer parte dos avanços observados nos últimos anos, justamente em um momento em que a aviação ainda busca recuperar plenamente os níveis de conectividade existentes antes da pandemia.

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