A revolução potente do empreendedorismo feminino que está mudando vidas e territórios no Maranhão

Mulheres são protagonistas do desenvolvimento social com geração de renda e conquista de dignidade e propósito de vida.

Fonte: ADRIANA VIEIRA

Das mãos calejadas pelas dificuldades enfrentadas na vida, dona Maria Antônia Ferreira Reis Conceição cria, ponto a ponto, verdadeiras obras de arte, usando linhas e agulhas.

Na Europa, as grifes de luxo já decretaram 2026 como sendo o ano do crochê e do artesanal. E no Brasil, a seleção brasileira nem entrou em campo ainda, mas a dona Maria Antônia já foi convocada por clientes para produzir blusas, colares e acessórios de crochê na temática da copa do mundo.

Ela está a mil: animada e pronta para surfar essa onda de alta demanda do crochê. Do alto dos seus sessenta anos, Maria Antônia tece as tramas de um futuro melhor – com novos sonhos, mais renda e dignidade; conquistados desde que decidiu fazer um curso de empreendedorismo básico, que mudaria sua vida para sempre.

A crocheteira Maria Antônia Ferreira Reis Conceição, à frente da grife M A Artes e Crochê (Foto: Dani Vieira)

DA CURA DA DEPRESSÃO AO EMPREENDEDORISMO DE SUCESSO: UMA JORNADA DE CAPACITAÇÃO E TRABALHO

Moradora da Mãe Chica, um bairro distante do centro de São Luís, dona Maria Antônia confessa que vivia em depressão por falta de um propósito maior nessa etapa de vida. Com os quatro filhos já criados e separada, ela tinha tempo de sobra, mas lhe faltava escolaridade para conseguir um emprego formal. Ela aprendeu crochê de forma intuitiva assistindo tutoriais, até que começou a produzir tapetes e toalhas e não parou mais.

Criou a grife M A Artes e Crochê, mas enfrentou as dificuldades e erros típicos da maioria das mulheres que empreendem movidas pela necessidade, mas sem ter uma qualificação: “Eu aprendi o crochê desde jovem, mas não sabia vender, não tinha visão comercial e nem sabia o valor do meu trabalho. Eu só fazia tapetes e toalhas, não variava o produto, e nem estudava as demandas do mercado. Até que fiz diversos cursos oferecidos na comunidade e isso mudou a minha vida”, explicou a empreendedora.

A artesã se refere aos cursos ofertados pelos programas sociais do TUP Porto São Luís, desenvolvidos para mulheres, que contribuem para alavancar capacitação e geração de renda. O empreendimento portuário localizado na capital maranhense, tem priorizado programas estruturantes voltados à capacitação profissionalizante, em especial de mulheres, residentes nas comunidades do Cajueiro, Mãe Chica e entorno. E está ajudando a mudar vidas através de parcerias com o Sebrae, Senai, Senar e instituições privadas.

Os cursos – que vão de empreendedorismo básico à manipulação de alimentos; produção de doces e salgados, bolos caseiros; corte e costura, beleza – foram realizados na própria comunidade gratuitamente; e despertaram novas habilidades produtivas, criando alternativas reais de capacitação, trabalho e geração de renda para as moradoras da região. Em parceria com o Sebrae-MA, foi realizada também, uma capacitação sobre temas como o MEI, o cooperativismo e o associativismo.

A REVOLUÇÃO SILENCIOSA QUE MOVE COMUNIDADES TEM NOME: EMPREENDEDORISMO FEMININO

Maria Antônia fez os diversos cursos ofertados pela empresa, e ampliou sua visão de mercado: “Aprendi sobre qualidade, como controlar as finanças, como cobrar e diversificar meus produtos, e a empreender de verdade. Foi assim que comecei a lucrar de fato. Consegui juntar dinheiro, comprei uma máquina industrial e comecei a empreender também, na área de roupas. E agora que o crochê tá na moda, a procura cresceu e a minha renda também. Com o meu trabalho, estou tendo dinheiro para realizar o antigo sonho de reformar a minha casa. Quero seguir produzindo, e nem tenho mais depressão. Quando vejo uma cliente vestindo uma roupa que fiz, sinto um orgulho imenso”, revelou a artesã e empreendedora.

“O impacto dessas iniciativas de fomento ao empreendedorismo vai muito além da renda. Muitas mulheres recuperam a confiança em si mesmas como a dona Maria Antônia. E passam a se sentir produtivas e protagonistas de suas próprias trajetórias. Essa é a melhor forma de nos relacionarmos com a comunidade – ajudando a desenvolver pessoas e a potencializar talentos”, afirmou a gerente do TUP Porto São Luís Lívia Cândice.

A FORÇA DO EMPREENDEDORISMO FEMININO NO BRASIL

Dados sobre empreendedorismo feminino do Data Sebrae revelam a potência desse movimento. O empreendedorismo feminino cresceu 27% em dez anos no país – e deu um salto de 16 pontos percentuais.

Graças ao trabalho de fomento ao empreendedorismo feminino realizado por entidades como o Sebrae que, no país hoje, já são mais de 10,4 milhões de mulheres donas de seus próprios negócios, movimentando a economia e fortalecendo territórios.

IMPACTO SOCIAL MULTIPLICADOR E HISTÓRIAS INSPIRADORAS: MULHERES QUE USAM AS MÃOS PARA SUSTENTAR FAMÍLIAS

Outras mulheres beneficiadas pelas capacitações do TUP Porto São Luís também se tornaram produtivas e ingressaram em uma trajetória ascendente de independência financeira, orgulho, protagonismo e pertencimento.

Flor de Lys Pereira de Araújo, que aos sessenta anos comemora o sucesso como empreendedora, confessa que nunca esteve tão feliz. Ela produz bolsas e mochilas no ateliê que montou em casa, após fazer um curso de corte e costura: “Antes eu vivia entediada, só cuidando da casa; sem formação e sem trabalho. Devo a esse curso tudo o que sou agora. Parece que eu renasci, quando aprendi a costurar. Comprei minha máquina, que é minha grande companheira hoje. Faço bolsas, mochilas e meus produtos já começaram a ser levados para outros estados, sempre elogiados pela qualidade. Quero inspirar mais mulheres a empreenderem. Não devemos nos acomodar. Nunca me senti tão feliz e produtiva como agora”, disse sorrindo a artesã, moradora do Cajueiro.

A artesã Flor de Lys Pereira de Araújo que comanda uma pequena fábrica de bolsas e mochilas no bairro do Cajueiro (Foto: Dani Vieira)

E foi no ramo de alimentos que Raylane Gomes Dias conquistou aos 33 anos a sua independência financeira, após fazer o curso de bolos caseiros. Hoje, vende seus doces na comunidade e ganhou um contrato fixo para o fornecimento de lanches para os projetos sociais da empresa. Ela revela que teve a vida transformada pelo empreendedorismo: “Nossa comunidade é muito isolada, só temos um ônibus aqui, e poder me capacitar e trabalhar perto de casa foi um presente. Foi esse curso que me permitiu empreender com segurança e virar uma profissional de verdade. Hoje sustento minha família e sonho crescer e ter mais pontos de venda. O contrato fixo com o Porto provou que sou capaz. Aprendi acima de tudo, a acreditar em mim. Empreender mudou a minha vida”, refletiu.

Segundo revelam os estudos do Sebrae, Raylane está entre as mais de 53% das mulheres donas de negócios no Brasil, que são chefes de domicílio, sendo as principais responsáveis pelo sustento da família. Em relação ao total de donos de negócios no país, as mulheres representam cerca de 34% dos empreendedores, consolidando o forte papel de liderança feminina na economia nacional.

A boleira Raylane Dias, que sustenta a família com as delícias que produz em casa e sonha em ampliar o negócio (Foto: Dani Vieira)

Essas histórias demonstram, na prática, uma conquista que vai muito além da renda: O empreendedorismo devolve propósito, e garante dignidade e sonhos às mulheres que decidem empreender. Flor de Lys, Maria Antônia e Raylane descobriram o próprio valor. E através do empreendedorismo, estão transformando a realidade ao seu redor, além de incentivarem mais mulheres com seus exemplos.

A FORÇA QUE MOVE TERRITÓRIOS: QUANDO UMA MULHER PROSPERA, SUA COMUNIDADE AVANÇA

Investir na formação produtiva de mulheres — especialmente aquelas que são chefes de família — gera efeito positivo multiplicador na economia doméstica e nas comunidades. Segundo dados do Banco Mundial e da ONU Mulheres, cerca de 70% das decisões de consumo familiar em países em desenvolvimento são tomadas por mulheres. E grande parte da renda gerada por elas é direcionada para alimentação, educação e saúde dos filhos; criando um ciclo virtuoso de melhoria das condições de vida de famílias e comunidades.

Nesse contexto, são mais que positivas políticas públicas que apoiem as mulheres empreendedoras, como o Fampe Mulher (Fundo de Aval às Micro e Pequenas Empresas); que é um fundo garantidor do Sebrae, voltado para apoiar exclusivamente negócios com liderança feminina. Essa iniciativa do Sebrae oferece garantia complementar (aval) de até 100% para facilitar a aprovação de empréstimos bancários a empreendedoras; servindo como alternativa para quem enfrenta dificuldades em fornecer as garantias exigidas pelos bancos.

E mais, cerca de 73% dos empreendimentos liderados por mulheres no Brasil são majoritariamente femininos. E quando uma mulher empreende e cresce, sonha e puxa outras mulheres para esse círculo virtuoso de trabalho e renda. Uma revolução potente, silenciosa e democrática que muda vidas, desenvolve territórios e alavanca as economias maranhense e brasileira.

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