A autonomia financeira tem se mostrado um dos principais fatores de impacto na saúde mental de mulheres em situação de vulnerabilidade social, influenciando diretamente a autoestima, a tomada de decisões, a percepção de liberdade e até a permanência em relacionamentos abusivos. De acordo com a pesquisa Mulheres e Mercado de Trabalho, produzida pela Consultoria Maya, a independência financeira é vista como prioridade para cerca de 37,3% das entrevistadas.
Para a psicóloga e coordenadora social da ONG Orientavida, Érica Fernanda da Silva, os impactos da dependência financeira vão muito além da questão econômica e afetam diretamente a liberdade, a autoestima e a capacidade de decisão das mulheres.
“A ausência de autonomia financeira impacta na liberdade da mulher, em sua possibilidade de escolhas e sentimento de competência. Essas situações podem gerar amarras emocionais, causando danos à autoestima, uma vez que não conseguem fazer gestão das próprias vidas, vivenciando constantemente o medo da instabilidade, insegurança e principalmente, a dependência em relacionamentos tóxicos e/ou abusivos”, afirma.
Segundo Érica, essa realidade costuma aparecer em situações cotidianas que demonstram a falta de autonomia sobre a própria vida. Ela afirma que é possível indentificar isso em falas nas quais, quando questionadas sobre algo, respondem que precisam pedir permissão ao marido; um outro exemplo apontado pela psicóloga, é quando elas não possuem coisas básicas do dia a dia, como um celular próprio, chave pix, entre outros, pois toda a gestão de sua vida está ligada a terceiros – na maioria das vezes um homem.
“A dependência financeira também está entre os fatores que contribuem para a permanência de muitas mulheres em relacionamentos abusivos. Mas certamente, numa perspectiva de construção social, a dependência financeira e consequentemente a estabilidade, é um grande fator para que muitas mulheres permaneçam sendo abusadas em seus relacionamentos. Essa situação se agrava quando existem filhos, ainda crianças. Existe um senso comum de que a separação causa sofrimento às crianças, e esse estigma que vai se perpetuando socialmente, acaba por deixar muitas mulheres reféns de vínculos abusivos”, comenta.
Por outro lado, quando as mulheres conquistam independência financeira, as mudanças passam a ser percebidas em diferentes aspectos da vida pessoal, emocional e social. Um aspecto observado logo no início pela psicóloga. Para ela, é notável os pequenos gestos de autocuidado, como mudanças no cabelo, roupas, as unhas. Além disso, a forma como se expressam também muda, ou seja, tornam-se mais firmes, extrovertidas, relatam sonhos, metas, coisas que não aparecem quando não há uma autonomia financeira, justamente por se sentirem privadas ou incapazes.
Érica explica que a autonomia financeira também permite que essas mulheres ampliem seus papéis sociais e construam novos projetos de vida. “Elas internalizam esse lugar de empoderamento. Em muitos casos, percebe-se até a expansão nos papéis sociais, ou seja, deixam de viver exclusivamente para filhos/maridos, e passam a sair com amigas, estudar, entre outras coisas”.
Acolhimento e reconstrução emocional
Nesse contexto, projetos sociais voltados à capacitação profissional e à geração de renda desempenham papel importante no fortalecimento emocional de mulheres em situação de vulnerabilidade. A psicóloga esclarece que iniciativas desse tipo vão além da formação técnica e criam espaços de acolhimento, troca de experiências e fortalecimento coletivo.
“Iniciativas assim promovem espaços de acolhimento, nas quais podem partilhar, se identificar e se fortalecer, criando rede de apoio entre si. São espaços que as impulsionam a acreditar em seu potencial, investir em suas habilidades. Outro aspecto é o fato de essas mulheres se sentirem ouvidas e validadas. A maioria vem de realidades vulneráveis, marginalizadas, então, estão acostumadas a serem julgadas e excluídas. Ter a oportunidade de se reinventar, ressignificar suas histórias e ainda alcançar uma autonomia financeira é algo transformador que mexe com toda a estrutura social”, ressalta.
A busca por autonomia sem abrir mão da saúde mental
Apesar dos avanços, a conquista da independência financeira ainda esbarra em desafios relacionados à sobrecarga feminina, especialmente para mulheres que acumulam responsabilidades profissionais, familiares e domésticas. Segundo Érica, essa realidade não pode ser analisada apenas como uma questão individual, mas como resultado de uma construção social histórica.
“Esse viés é mais complicado, porque não reflete só um desejo e o processo individual, mas sim, uma construção social. A mulher é colocada num lugar de ser a pessoa que dá conta de tudo, tem seu desgaste e sofrimento romantizado, e quando se posiciona, é fortemente julgada, desde os vínculos mais próximos como de forma geral na sociedade.”
Para a psicóloga, antes de buscar equilíbrio, é necessário repensar a distribuição das responsabilidades dentro dos lares e das relações. “Talvez a palavra equilíbrio não seja a melhor expressão para esse caso. O fato é que, é preciso antes de mais nada, compreender que as tarefas do dia a dia não são obrigação de alguém pelo simples fato de serem mulheres – cuidar da casa, lavar roupa, comida, etc. Logo, devem ser partilhadas.”
Erica aponta que a saúde mental está ligada diretamente ao estabelecimento de limites, em todas as relações, portanto, é importante corresponsabilizar o outro. Dedicar tempo, dentro das possibilidades, para saúde física, alimentação, lazer, e isso não tem a ver com coisas grandes ou inacessíveis financeiramente, mas com pequenos gestos na realidade de cada uma, que a faça ter prazer na vida ao invés de um quadro constante de exaustão. E por isso, ter a própria renda é fundamental.
Por fim, a psicóloga deixa uma mensagem para mulheres que desejam conquistar maior independência financeira, mas ainda enfrentam inseguranças. “Valorize sua história, suas vivências, sempre haverá um espaço onde você será o potencial transformador e ter impacto na vida de alguém, mas primeiro, é necessário ter coragem de transformar a própria vida”.