Maranhão ganha protagonismo em projeção que aponta Nordeste como motor da economia brasileira

Porto do Itaqui, Matopiba e investimentos em infraestrutura fortalecem o papel do Maranhão na expansão econômica do Nordeste

Fonte: Da redação

O Nordeste deverá assumir a liderança do crescimento econômico brasileiro na próxima década, impulsionado por uma combinação de grandes investimentos em indústria, infraestrutura, logística, agronegócio e energia renovável. A projeção é da Tendências Consultoria, que estima uma expansão do Produto Interno Bruto (PIB) regional de 1,9% em 2026, 1,6% em 2027 e média anual de 3,3% entre 2028 e 2035, desempenho superior ao esperado para o Brasil, cuja economia deverá crescer, em média, 2,4% ao ano no mesmo período.

Dentro desse cenário, o Maranhão desponta como um dos estados estratégicos para sustentar esse novo ciclo de desenvolvimento. O fortalecimento do Porto do Itaqui, a expansão da produção agrícola do Matopiba, a integração ferroviária e o potencial para geração de energia renovável colocam o estado entre os principais beneficiados pela transformação econômica da região.

Segundo a economista Camila Saito, responsável pelo estudo da Tendências Consultoria, o Nordeste passa por uma mudança estrutural, impulsionada pela chegada de grandes empreendimentos produtivos que deverão elevar a competitividade regional durante os próximos anos.

“O Nordeste está atraindo uma série de investimentos produtivos que vão gerar novas perspectivas de desenvolvimento”, afirma.

O movimento é liderado por projetos de grande porte distribuídos em diversos estados. No Ceará, a chinesa TikTok constrói um data center estimado em R$ 200 bilhões no município de Caucaia, considerado um dos maiores investimentos privados já anunciados para a região. Também no estado, a Noxis Energy prevê investir até R$ 10 bilhões em uma refinaria instalada no Complexo Industrial e Portuário do Pecém.

Na Bahia, os investimentos envolvem diferentes setores. A montadora chinesa BYD aplica R$ 5,5 bilhões na implantação de sua fábrica em Camaçari, enquanto a Acelen desenvolve projetos de aproximadamente R$ 16 bilhões voltados à produção de combustíveis renováveis e biocombustíveis. O estado também receberá um empreendimento da Brazil Iron, estimado em US$ 5,7 bilhões, destinado à produção de ferro briquetado a quente.

Pernambuco também figura entre os destaques. A Stellantis investe R$ 13 bilhões na expansão do polo automotivo de Goiana, enquanto a Petrobras destina cerca de R$ 12 bilhões para ampliar a capacidade da Refinaria Abreu e Lima (RNEST). Já em Sergipe, a estatal anunciou investimentos de aproximadamente R$ 60 bilhões em novas plataformas para exploração de petróleo.

A Tendências projeta que todo esse conjunto de aportes permitirá à indústria nordestina crescer, em média, 3,9% ao ano a partir de 2028, tornando-se o principal motor da economia regional.

No entanto, os especialistas avaliam que um dos maiores diferenciais competitivos do Nordeste está na infraestrutura logística. É nesse ponto que o Maranhão assume posição de destaque nacional.

O Porto do Itaqui, em São Luís, consolidou-se como o maior porto público do Arco Norte e um dos principais corredores de exportação do agronegócio brasileiro. Além de receber grande parte dos fertilizantes utilizados na produção agrícola nacional, o complexo responde pelo escoamento de soja, milho, minério e combustíveis destinados ao mercado internacional.

A posição geográfica privilegiada do porto reduz significativamente o tempo de viagem para Europa, América do Norte e Ásia quando comparado aos portos do Sul e Sudeste, diminuindo custos logísticos e aumentando a competitividade das exportações brasileiras.

Segundo o Banco do Nordeste (BNB), os projetos previstos para os portos de Itaqui, Suape e Pecém somam cerca de R$ 4 bilhões em investimentos já contratados. Outros R$ 7 bilhões em novos empreendimentos ainda estão em fase de planejamento.

Para o economista-chefe do Banco do Nordeste, Rogério Sobreira, a combinação entre localização estratégica e ampliação da infraestrutura deverá transformar a região em um dos principais centros logísticos do país.

“Contando com infraestrutura adequada, o Nordeste vai se posicionar como um importante hub logístico nacional”, avalia.

A expansão logística beneficia diretamente o Matopiba, fronteira agrícola formada por Maranhão, Tocantins, Piauí e Bahia, que já responde por aproximadamente 19% da produção nacional de soja. Com a melhoria da infraestrutura ferroviária e portuária, a tendência é que os custos de transporte diminuam, aumentando a competitividade da produção agrícola brasileira nos mercados internacionais.

No Maranhão, esse processo já vem sendo observado. O Porto do Itaqui registrou sucessivos recordes de movimentação de cargas e tornou-se peça fundamental para o escoamento da safra produzida tanto no Matopiba quanto no Centro-Oeste.

Outro eixo importante para o crescimento regional está na expansão da infraestrutura de transporte. A Ferrovia Transnordestina, que ligará Eliseu Martins, no Piauí, ao Porto de Pecém, no Ceará, deverá ser concluída em 2028 após investimentos superiores a R$ 15 bilhões. Na Bahia, a Ferrovia de Integração Oeste-Leste (Fiol) avança com mais de 60% das obras executadas, conectando áreas produtoras ao futuro Porto Sul, em Ilhéus.

O Maranhão também integra esse processo de modernização logística por meio da Ferrovia Norte-Sul, da Estrada de Ferro Carajás e das conexões ferroviárias que alimentam o Porto do Itaqui, fortalecendo sua posição como principal porta de saída da produção agrícola e mineral do Arco Norte.

Outro fator que favorece o Nordeste é sua liderança na geração de energia renovável. A região tornou-se a maior produtora nacional de energia eólica e solar, alcançando 139 terawatt-hora (TWh) em 2025. Desse total, aproximadamente 55% foram exportados para outras regiões do país, consolidando o Nordeste como superavitário em energia limpa desde 2020.

Apesar desse potencial, o setor ainda enfrenta desafios. A insuficiência da infraestrutura de transmissão levou o Operador Nacional do Sistema Elétrico (ONS) a realizar cortes na geração de energia renovável — conhecidos como curtailment — desde 2024. Segundo produtores, os prejuízos já ultrapassam R$ 7 bilhões, enquanto a Associação Brasileira de Energia Solar Fotovoltaica (Absolar) estima que R$ 14,5 bilhões em investimentos deixaram de ser realizados em 2025.

Ainda assim, especialistas acreditam que o problema tende a ser solucionado com novos investimentos em linhas de transmissão e sistemas de armazenamento de energia, preservando o potencial competitivo da região.

A ampla oferta de energia renovável também abre espaço para um novo modelo de desenvolvimento industrial conhecido como “powershoring”. A estratégia consiste em atrair empresas de grande consumo energético que buscam reduzir suas emissões de carbono, como data centers, indústrias químicas, siderúrgicas, metalúrgicas, biorrefinarias e projetos de hidrogênio verde.

“O Nordeste hoje exporta energia, mas pode utilizar essa vantagem para atrair empreendimentos eletrointensivos e agregar mais valor à economia regional”, afirma Paulo Guimarães, sócio-diretor da Ceplan.

Embora as perspectivas sejam positivas, os especialistas alertam que o crescimento econômico precisará ser acompanhado de avanços sociais. Dados do IBGE mostram que apenas 45,6% da população nordestina concluiu a educação básica e somente 13% dos adultos possuem diploma universitário. A produtividade do trabalhador da região permanece abaixo da média nacional, enquanto o Nordeste concentra 26,8% da população brasileira, mas responde por apenas 13,8% do PIB do país.

Para o coordenador do Centro de Estudos para o Desenvolvimento do Nordeste da FGV Ibre, Flávio Ataliba, reduzir essas desigualdades será fundamental para transformar o atual ciclo de investimentos em desenvolvimento sustentável.

“O Nordeste precisa melhorar seus indicadores de educação para elevar a produtividade e garantir um crescimento consistente, inclusivo e duradouro”, afirma.

Com a combinação entre investimentos bilionários, fortalecimento da indústria, expansão da infraestrutura e liderança na transição energética, o Nordeste inicia uma nova etapa de desenvolvimento econômico. Dentro desse cenário, o Maranhão aparece como um dos estados mais bem posicionados para aproveitar esse movimento, apoiado pelo avanço do Porto do Itaqui, pela expansão do Matopiba e pela consolidação de sua infraestrutura logística como elo estratégico entre a produção brasileira e o mercado internacional.

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