
A crise nas UTIs pediátricas do Hospital da Criança Dr. Odorico Amaral de Matos, em São Luís, ganhou repercussão nacional nesta sexta-feira (24). Reportagem exibida pelo Bom Dia Brasil, da TV Globo, reuniu dados sobre o aumento das mortes, relatos de famílias e resultados de inspeções realizadas na unidade.
Informações encaminhadas ao Ministério Público do Maranhão (MPMA) apontam que 113 crianças morreram no hospital em 2025. Desse total, 101 óbitos ocorreram nas três UTIs pediátricas — aumento de 159% em relação ao ano anterior.
O quadro continuou preocupante em 2026. Um documento interno apresentado pela reportagem registra 53 mortes nas UTIs durante o primeiro semestre, cerca de 36% acima do número contabilizado no mesmo período do ano passado.
Os dados são analisados por órgãos estaduais e federais, mas, isoladamente, não permitem determinar as causas de cada morte. As investigações buscam saber se houve falhas assistenciais, carência de profissionais especializados, deficiência estrutural ou outros fatores capazes de influenciar os resultados.
Famílias relatam espera por leito e piora após alta
Entre os casos levados à televisão estão os dos gêmeos Bento e Bernardo, de quatro meses. Bento morreu depois de ser internado em uma UTI. Bernardo, segundo informações reunidas pela Defensoria Pública, não conseguiu acesso a um leito intensivo antes de morrer.
A direção do hospital alegou que o estado clínico impediria a transferência de Bernardo. A Defensoria, no entanto, considera necessário investigar se a falta de vagas também contribuiu para o desfecho.
A reportagem mostrou ainda o caso de Kerliane, de sete anos. A criança recebeu alta após o atendimento inicial, voltou ao hospital dois dias depois em estado grave e morreu. As circunstâncias do atendimento e da liberação deverão ser analisadas individualmente.
Gestão das UTIs está sob investigação
Uma das linhas de apuração envolve a transferência da gestão médica das UTIs para o Instituto Brasileiro de Serviços Médicos (IBMED), ocorrida em outubro de 2025.
O MPMA investiga possíveis irregularidades na licitação e no chamamento público que resultaram na contratação. A Defensoria afirma ter apontado, ainda durante o processo licitatório, problemas como equipes subdimensionadas e a possibilidade de atuação de médicos sem especialização em terapia intensiva pediátrica.
Em julho, uma inspeção da Defensoria Pública encontrou apenas um médico plantonista em cada UTI para atender até dez leitos de alta complexidade. Também não havia médicos diaristas, coordenadores exclusivos ou responsáveis técnicos presentes durante a vistoria no período da tarde.
A instituição ajuizou uma ação civil pública contra a Prefeitura de São Luís e o IBMED. Entre os pedidos estão a apresentação de um plano emergencial, a adequação das equipes, a realização de novas inspeções e o acompanhamento judicial das medidas adotadas. A ação tem como objetivo regularizar o serviço, sem atribuir previamente responsabilidade individual aos profissionais.
Auditoria aponta jornadas de até 192 horas
Uma inspeção do Departamento Nacional de Auditoria do SUS, realizada em 14 de julho, identificou insuficiência recorrente de profissionais. De acordo com os dados apresentados pela Defensoria, 77% dos médicos que atuaram nas UTIs entre fevereiro e abril não tinham a especialização exigida.
O relatório também registrou profissionais submetidos a jornadas de 96, 120 e até 192 horas consecutivas. A documentação deverá servir de base para uma auditoria mais ampla sobre o funcionamento das unidades.
A reportagem do Bom Dia Brasil também citou deficiência de equipamentos e compartilhamento de aparelhos entre pacientes, além de classificar como grave a situação da gestão médica.
Prefeitura nega falta de profissionais
Em nota exibida pela TV Globo, a Secretaria Municipal de Saúde (Semus) afirmou que as UTIs do Hospital da Criança seguem as normas da Agência Nacional de Vigilância Sanitária. O município negou falta de profissionais e declarou que os protocolos assistenciais são cumpridos.
Além do MPMA e da Defensoria Pública, o caso é acompanhado pelo Ministério Público Federal, devido à utilização de recursos do Sistema Único de Saúde no contrato. A Polícia Civil também instaurou procedimentos para apurar possíveis irregularidades relacionadas ao hospital.
As investigações deverão confrontar prontuários, escalas médicas, taxas de mortalidade, relatórios de fiscalização e documentos do processo de contratação. Até a conclusão dessas análises, não é possível estabelecer uma relação direta entre a terceirização das UTIs e os óbitos registrados.