O número de brasileiros diagnosticados com leucemia segue em crescimento e reforça o desafio do diagnóstico precoce de um dos principais cânceres do sangue. Entre 2016 e 2026, os casos anuais estimados da doença passaram de 10.070 para 12.220, uma alta de 21%, percentual muito superior ao crescimento populacional registrado no mesmo período. O avanço é atribuído principalmente ao envelhecimento da população e à maior capacidade de identificação da enfermidade.
Depois do linfoma, a leucemia é o segundo câncer hematológico mais frequente no mundo. Apenas em 2023, foram registrados aproximadamente 573 mil novos casos globalmente. No Brasil, sem considerar os tumores de pele não melanoma, a doença ocupa a 13ª posição entre os tipos de câncer mais incidentes.
A leucemia surge quando alterações genéticas provocam a multiplicação descontrolada dos glóbulos brancos, que passam a ocupar a medula óssea e comprometem a produção normal de células fundamentais para o funcionamento do organismo, como hemácias, plaquetas e outras células de defesa.
Os especialistas chamam atenção especialmente para as formas crônicas da doença, que costumam evoluir lentamente e podem permanecer sem sintomas durante anos. Segundo o hematologista Pedro Neffá, da Oncologia D’Or, muitos pacientes descobrem a doença apenas durante exames laboratoriais de rotina, como um hemograma completo, ou quando investigam outras alterações de saúde.
“As leucemias crônicas se desenvolvem de forma lenta e nem sempre provocam sintomas. Muitas vezes, o diagnóstico acontece por acaso, durante exames solicitados por outros motivos”, explica o especialista.
As leucemias são classificadas de duas maneiras: pela velocidade de evolução — agudas ou crônicas — e pelo tipo de célula afetada. Quando atingem os linfócitos, recebem o nome de leucemia linfocítica. Quando comprometem outras células da medula óssea responsáveis pela formação dos glóbulos brancos, vermelhos e das plaquetas, são classificadas como leucemia mieloide.
Entre as formas crônicas, a leucemia linfocítica crônica é a mais frequente nos países ocidentais. Cerca de 70% dos casos ocorrem em pessoas com mais de 65 anos, e aproximadamente três em cada dez pacientes não apresentam qualquer sintoma no momento do diagnóstico.
Já a leucemia mieloide crônica corresponde a uma parcela menor dos casos, mas possui uma característica marcante: a presença do chamado cromossomo Philadelphia, alteração genética responsável pelo desenvolvimento da doença. Aproximadamente metade dos pacientes também permanece assintomática nas fases iniciais.
Quando os sintomas aparecem, eles costumam ser inespecíficos, como fadiga persistente, febre, palidez, perda de peso, suor noturno e sangramentos. Dependendo do tipo da leucemia, também podem ocorrer aumento dos gânglios linfáticos ou crescimento do baço.
Os principais grupos de risco são homens acima dos 50 anos, especialmente na leucemia linfocítica crônica. Também apresentam maior predisposição pessoas com histórico familiar da doença e indivíduos de ancestralidade europeia. No caso da leucemia mieloide crônica, a exposição a altas doses de radiação ionizante é o principal fator ambiental associado ao desenvolvimento da enfermidade.
Segundo Pedro Neffá, entre 5% e 10% dos pacientes com leucemia linfocítica crônica possuem parentes de primeiro grau que também desenvolveram a doença, reforçando a influência do componente hereditário.
Apesar do aumento dos diagnósticos, os especialistas destacam que o tratamento evoluiu significativamente nas últimas duas décadas. As terapias-alvo passaram a substituir grande parte da quimioterapia tradicional em pacientes com leucemia linfocítica crônica, oferecendo maior eficácia e menos efeitos adversos.
Na leucemia mieloide crônica, medicamentos conhecidos como inibidores de tirosina-quinase revolucionaram o tratamento. Antes considerados candidatos frequentes ao transplante de medula óssea, muitos pacientes hoje conseguem controlar a doença apenas com terapia oral. Segundo o hematologista, esses medicamentos atuam diretamente sobre a alteração genética responsável pelo crescimento do câncer, permitindo controlar a enfermidade por muitos anos e, em alguns casos, até suspender o tratamento sem reativação da doença.
Embora não exista uma forma específica de prevenção, especialistas recomendam hábitos saudáveis, como prática regular de atividade física, alimentação equilibrada e sono adequado. Além disso, consultas médicas periódicas e a realização de hemogramas de rotina podem ser fundamentais para identificar precocemente alterações que indiquem o desenvolvimento da leucemia, aumentando as chances de tratamento bem-sucedido.