
Um grupo investigado por fraudes eletrônicas envolvendo a transferência ilegal de linhas telefônicas teria causado prejuízo de pelo menos R$ 500 mil a vítimas de diferentes regiões do país. O valor foi divulgado pela Polícia Civil do Piauí após a segunda fase da Operação Chip Falso, deflagrada nesta quinta-feira (20).
As investigações são conduzidas pelo Departamento de Repressão aos Crimes Cibernéticos (DRCC). Segundo o delegado Humberto Márcola, depoimentos estão sendo colhidos em vários estados para dimensionar a atuação da organização.
“Estamos ouvindo pessoas no Brasil inteiro para conseguir desarticular essa organização”, afirmou.
Como funcionava o golpe
O esquema utilizava uma modalidade conhecida como SIM Swap. Nesse tipo de fraude, criminosos transferem indevidamente o número de telefone da vítima para outro chip, passando a receber ligações e mensagens destinadas ao verdadeiro titular.
Conforme a investigação, os suspeitos acessavam sistemas de operadoras e utilizavam documentos falsificados e selfies biométricas manipuladas para alterar a titularidade das linhas.
Com o controle dos números, o grupo teria invadido contas bancárias, clonado perfis do WhatsApp e realizado compras fraudulentas com cartões. Códigos de autenticação enviados por mensagens também poderiam ser interceptados para autorizar movimentações financeiras.
A Polícia Civil identificou vítimas em São Paulo, Maranhão, Pernambuco, Bahia, Santa Catarina, Rio de Janeiro, Mato Grosso e Minas Gerais.
Biometrias eram compradas durante festas
Pelo menos 120 pessoas teriam fornecido dados pessoais e imagens do próprio rosto aos investigados. Segundo o delegado, essas biometrias eram utilizadas para viabilizar as transferências fraudulentas das linhas.
A apuração indica que alguns participantes recebiam dinheiro para entregar os dados. Parte deles teria sido abordada durante festas organizadas pelo grupo.
Na primeira etapa da operação, a polícia identificou uma casa no bairro Monte Castelo, em Teresina, que seria utilizada para atrair pessoas. Mesmo após a descoberta do imóvel, os investigados teriam mudado de endereço e continuado a praticar as fraudes.
“Eles saíram da Rua Sísifo, no Monte Castelo, foram para outra casa e lá continuaram aplicando o golpe. Isso demonstra a reincidência e a ousadia nessa modalidade”, declarou Humberto Márcola.
Suspeito de comandar esquema é preso
Durante a operação desta quinta-feira, a polícia prendeu Lívio Fernando de Oliveira Sousa, conhecido como “Lívio da Caverna”. Apontado como líder do grupo, ele foi localizado no bairro Três Andares, na zona sul de Teresina.
Segundo a investigação, Lívio abordava pessoas e oferecia pagamentos para obter as biometrias faciais posteriormente inseridas, sem autorização, nos sistemas das operadoras.
A companheira dele, Rosana Rodrigues da Silva, também é investigada por possível participação no esquema. Alvo da primeira etapa da operação, ela se apresentou à polícia no dia 30 de julho.
Em depoimento, Rosana afirmou que teria sido usada pelo companheiro. O delegado, no entanto, declarou que o inquérito reúne elementos considerados consistentes sobre a possível atuação dela no grupo. As responsabilidades individuais ainda serão analisadas no decorrer da investigação.
Operação teve duas etapas
A primeira fase da Operação Chip Falso ocorreu no dia 15 de julho, com o cumprimento de 30 ordens judiciais em Teresina. As buscas permitiram à polícia identificar parte da estrutura empregada nas fraudes e a forma como os suspeitos acessavam os sistemas.
Na segunda fase, denominada Chip Falso II, foram cumpridos 32 mandados de prisão temporária e de busca e apreensão. As ordens foram expedidas pela Central de Inquéritos da Comarca de Teresina.
Além das supostas lideranças, a ação teve como alvos pessoas que teriam fornecido os próprios dados para facilitar as alterações cadastrais nas operadoras.
A Polícia Civil não revelou detalhes técnicos sobre o acesso aos sistemas para evitar prejuízos às diligências. Novas etapas da operação não estão descartadas.
Perda repentina de sinal pode indicar fraude
A Polícia Civil orienta os usuários de telefonia a ficarem atentos à perda repentina e prolongada do sinal do celular. A interrupção simultânea dos serviços de voz e dados, sem uma explicação aparente, pode indicar que o número foi transferido ilegalmente para outro chip.
Ao identificar esse sinal, o titular deve entrar em contato imediatamente com a operadora, comunicar bancos e outros serviços vinculados ao telefone e alterar as senhas das contas.
A operação foi coordenada pelo DRCC, com apoio da Superintendência de Operações Integradas, do Departamento de Operações Policiais Especiais e do Departamento de Repressão às Ações Criminosas Organizadas.