A produção mineral brasileira pode avançar dos atuais R$ 300 bilhões por ano para até R$ 535 bilhões em 2035 e sustentar a criação de 2,3 milhões de novos postos de trabalho diretos, indiretos e induzidos. Essa é a dimensão econômica estimada pela Vale em um plano que pretende colocar a mineração entre os eixos de crescimento e industrialização do país na próxima década.
Elaborado com a colaboração da Accenture, o estudo “Destravando o Potencial da Mineração no Brasil” estabelece 15 iniciativas distribuídas em quatro agendas prioritárias. As propostas envolvem licenciamento ambiental, infraestrutura, oferta de energia, regulação, tributação, financiamento e desenvolvimento das comunidades onde a atividade mineral está presente.
O documento será entregue aos candidatos à Presidência da República em 2026. A iniciativa também posiciona a Vale no debate sobre as políticas públicas para o setor em um período no qual o governo federal cobra das grandes mineradoras ampliação dos investimentos e maior geração de emprego e renda no país.
Uma das principais projeções está no mercado de trabalho. O impacto da mineração sobre o emprego, atualmente estimado em cerca de 3 milhões de postos, poderia chegar a 5,3 milhões até 2035 caso as medidas propostas sejam implementadas e a produção avance conforme o cenário traçado pelo estudo.
A arrecadação tributária também teria expansão relevante. Segundo a Vale, o setor mineral gerou aproximadamente R$ 750 bilhões em tributos na última década. Para o período entre 2026 e 2035, o plano estima R$ 1,3 trilhão, aumento de aproximadamente 73%. A companhia relaciona esse potencial de receita à capacidade de financiar políticas públicas e contribuir para o equilíbrio fiscal.
Para alcançar esses resultados, a Vale considera necessário reduzir entraves que atualmente limitam novos projetos. A companhia defende maior previsibilidade no licenciamento e no ambiente regulatório, disponibilidade de infraestrutura e energia e instrumentos tributários e financeiros que estimulem investimentos de longo prazo.
A discussão ganha importância adicional com a demanda global por minerais considerados estratégicos para a transição energética e para novas tecnologias. O Brasil possui reservas de lítio, níquel, grafite, cobre, cobalto e terras raras, matérias-primas utilizadas em baterias, veículos elétricos, geração renovável e equipamentos tecnológicos. Potássio e fosfato também são considerados estratégicos pela importância para a produção nacional de fertilizantes.
O desafio, porém, não está apenas em ampliar a extração. O governo federal defende que o crescimento da mineração seja acompanhado pelo desenvolvimento de etapas industriais dentro do Brasil, evitando que o país concentre sua participação na exportação de matérias-primas sem processamento e agregação de valor.
O Ministério de Minas e Energia avalia que capital estrangeiro e cooperação internacional podem contribuir para ampliar capacidade produtiva, inovação e desenvolvimento tecnológico. Ao mesmo tempo, estudos do governo identificam como prioridade fortalecer o midstream, etapa que inclui separação, purificação, refino e transformação dos minerais em óxidos, metais e ligas.
Essa visão não coincide integralmente com a estratégia atual da Vale. Gustavo Pimenta, presidente da mineradora, afirmou recentemente que as oportunidades mais atrativas para a companhia em minerais críticos estão no upstream, que compreende mineração, concentração e beneficiamento. Segundo o executivo, as margens na etapa de refino são mais estreitas.
A diferença evidencia um dos desafios para transformar o potencial geológico brasileiro em uma cadeia industrial mais completa. Enquanto a mineração busca projetos economicamente competitivos, o governo pretende criar mecanismos capazes de estimular investimentos também nas etapas posteriores à extração, responsáveis por maior agregação de valor.
No curto prazo, a estratégia do Ministério de Minas e Energia passa pelo fortalecimento de um upstream competitivo, ampliação do conhecimento geológico e criação de mecanismos que reduzam os riscos dos investimentos. Incentivos tributários e financeiros para a verticalização gradual e maior coordenação regulatória também fazem parte da agenda.
Parte dessas mudanças depende do marco legal dos minerais críticos, ainda em discussão no Congresso. Para a Vale, uma agenda coordenada entre governo, empresas e sociedade poderia aproveitar a crescente demanda internacional e transformar a mineração em uma plataforma de expansão do investimento, da arrecadação e do emprego no país.