O governador Carlos Brandão (MDB) atribuiu o rompimento com o grupo político de Flávio Dino à disputa por espaços no governo e pelo controle político do Maranhão. Em entrevista à Folha de S.Paulo, Brandão também afirmou que ajudou diretamente Dino a ingressar na política em 2006 e defendeu que o atual ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) não deveria atuar em processos envolvendo integrantes de seu grupo. As declarações representam a versão do governador para uma disputa que se intensificou nos últimos anos.
Segundo Brandão, a relação começou a se deteriorar quando antigos aliados passaram a reivindicar mais espaços na administração estadual e na Assembleia Legislativa. O governador afirmou que interpretou o movimento como uma tentativa de manter influência sobre o Palácio dos Leões mesmo depois de Dino deixar o governo. “Eles queriam a chave do Palácio dos Leões”, declarou.
Brandão afirma que o conflito ganhou força nas eleições municipais de 2024, principalmente nas disputas em Colinas e Barreirinhas. Na versão apresentada por ele, a partir daquele momento as divergências políticas avançaram também para o campo judicial, inclusive em ações relacionadas às indicações para o Tribunal de Contas do Estado do Maranhão (TCE-MA).
O governador também confirmou que decidiu permanecer no cargo até o fim do mandato e não disputar uma vaga no Senado para impedir que o vice-governador Felipe Camarão (PT), atualmente adversário de seu grupo, assumisse o comando do Estado. Segundo Brandão, a decisão foi tomada depois de uma reunião com aliados, que temiam uma reorganização do grupo ligado a Dino caso Camarão assumisse o Palácio dos Leões.
Camarão disputa atualmente o governo do Maranhão pelo PT e conta com o apoio do presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Brandão lançou como sucessor o sobrinho Orleans Brandão (MDB). Apesar da divisão estadual, o governador afirmou que continua apoiando Lula e atribuiu a posição à relação institucional mantida com o presidente e às parcerias entre os governos federal e estadual.
Outro ponto da entrevista foi a atuação de Dino no STF. Brandão defendeu que o ministro se declare impedido de atuar em investigações que envolvem o governador, familiares e integrantes de seu grupo político. Ele questionou a imparcialidade de um magistrado diante de casos envolvendo antigos aliados ou atuais adversários.
Dino, por sua vez, sustenta que não há impedimento legal para sua atuação. Em manifestação divulgada anteriormente por sua assessoria, o ministro afirmou que as hipóteses de impedimento previstas na legislação não se aplicam aos casos em questão. A alegação de Brandão, portanto, é contestada pelo ministro e não corresponde a uma decisão judicial sobre a existência de impedimento.
Entre os episódios citados pelo governador está o afastamento cautelar de Daniel Brandão, seu sobrinho, da presidência do TCE-MA. Brandão também questionou a transferência para o STF de investigações que anteriormente tramitavam no Superior Tribunal de Justiça (STJ), mudança ocorrida depois que apurações passaram a envolver autoridades com foro no Supremo. Dino tornou-se relator desses procedimentos.
Uma das investigações envolve um homicídio ocorrido em São Luís e a presença de Daniel Brandão no local pouco antes do crime. O governador afirmou que o sobrinho apenas passou pelo endereço e cumprimentou pessoas que estavam reunidas. Também rejeitou as acusações feitas por Gilbson Cutrim, assassino confesso que, ao mudar seu depoimento, passou a atribuir crimes ao grupo de Brandão. As declarações permanecem no campo das investigações e das versões apresentadas pelos envolvidos.
Ao reconstituir sua relação com Dino, Brandão afirmou que teve participação decisiva na entrada do ex-governador na política. Segundo ele, em 2006 abriu mão de aproximadamente 50 mil votos e direcionou aliados de sua base na região leste do Maranhão para apoiar Dino, que naquele momento deixava a magistratura para disputar uma eleição.
Brandão citou ainda uma declaração feita por Dino em 2020 reconhecendo um gesto de amizade e apoio político recebido naquele período. Para o governador, o episódio demonstra a proximidade que existiu entre os dois antes da ruptura.
A aliança permaneceu durante os dois mandatos de Dino no governo estadual, entre 2015 e 2022, quando Brandão ocupou a vice-governadoria. Com a saída de Dino para concorrer ao Senado, Brandão assumiu o Palácio dos Leões e posteriormente foi eleito para o mandato de 2023 a 2026. Segundo ele, os mais de sete anos em que os dois administraram juntos transcorreram sem conflitos relevantes.
O antigo grupo chega às eleições de 2026 dividido em projetos diferentes para a sucessão estadual. Enquanto Brandão trabalha pela eleição de Orleans, Dino mantém proximidade política com o grupo que apoia Felipe Camarão. A disputa também passou a envolver divergências sobre decisões judiciais e investigações que atingem integrantes dos dois campos políticos no Maranhão.