Video de mulher usando substâncias entorpecentes não aconteceu em ato na Avenida Paulista

Vídeo associado a ato pró-Lula na Paulista é desmentido por checagem. Tarcísio e Flávio Bolsonaro compartilharam imagens

Fonte: Da redação


Um vídeo que mostra uma mulher aparentemente consumindo uma substância ilícita passou a ser utilizado nas redes sociais para associar o uso de drogas à manifestação em apoio ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), realizada no domingo (11), na avenida Paulista, em São Paulo. A ligação, entretanto, é falsa. Uma checagem publicada nesta segunda-feira (12) pela agência Aos Fatos identificou que a gravação já circulava na internet antes do protesto.

O material ganhou repercussão durante a disputa pelo segundo turno das eleições presidenciais e foi compartilhado, entre outros políticos, pelo governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas (Republicanos), e pelo candidato à Presidência Flávio Bolsonaro (PL). As publicações utilizaram as imagens para criticar a manifestação de apoiadores do presidente.

A verificação realizada pela Aos Fatos encontrou registros do vídeo publicados no sábado (10), um dia antes do ato na capital paulista, em perfis argentinos e chilenos na rede social X. A circulação anterior à manifestação demonstra que a gravação não foi produzida durante o evento de domingo.

Até a conclusão da checagem, não havia sido possível determinar onde as imagens foram registradas, identificar a mulher ou confirmar qual substância aparece no vídeo.

A gravação mostra uma mulher de cabelos vermelhos aproximando o rosto de um objeto que segura nas mãos. Nas redes sociais brasileiras, a cena foi apresentada como se tivesse ocorrido durante a mobilização de apoiadores de Lula.

Uma das publicações utilizadas para disseminar o conteúdo remetia a um perfil identificado como Giuliana_NAC, que apresentava uma versão diferente sobre a origem das imagens. Segundo a legenda em espanhol, a mulher teria participado de uma marcha em apoio à Palestina, realizada na região da Alameda, no Chile, no sábado (10).

Essa informação, porém, também não foi confirmada pela agência de checagem. A existência da publicação demonstra apenas que o vídeo circulava com outra atribuição, sem permitir estabelecer sua localização original. Aos Fatos identificou que uma das postagens brasileiras com a falsa associação ao ato pró-Lula ultrapassava 480 mil visualizações.

A circulação do vídeo ganhou dimensão política nesta segunda-feira, quando Tarcísio de Freitas e Flávio Bolsonaro divulgaram publicações que utilizavam a gravação para criticar a manifestação realizada na avenida Paulista.

O governador paulista publicou um vídeo contrapondo imagens de manifestantes vestidos de verde e amarelo a cenas que classificou como exemplos de vandalismo, depredação e intolerância. Na publicação, Tarcísio defendeu o direito à manifestação, mas afirmou que a democracia não autoriza atos de destruição. Entre as imagens utilizadas estava o registro da mulher supostamente consumindo drogas, cuja associação ao protesto já havia sido desmentida.

Flávio Bolsonaro também compartilhou conteúdo com a mesma gravação, acompanhado de uma crítica ao cenário apresentado nas imagens. Segundo reportagem do UOL, a publicação do candidato já acumulava mais de um milhão de curtidas na tarde desta segunda-feira. Procurado pelo veículo, o governador de São Paulo não respondeu especificamente por que havia utilizado imagens que não correspondiam à manifestação.

A divulgação do material provocou reação da campanha de reeleição do presidente Lula, que acionou o Tribunal Superior Eleitoral (TSE) para solicitar a retirada de publicações associando a manifestação ao consumo de drogas, vandalismo e terrorismo.

A iniciativa ocorre em meio ao acirramento da disputa presidencial, marcada para ser decidida no segundo turno, em 25 de outubro. O questionamento apresentado à Justiça Eleitoral envolve a utilização de imagens que não correspondem ao evento para construir uma narrativa negativa sobre seus participantes.

A circulação de conteúdos descontextualizados durante campanhas eleitorais pode influenciar a percepção dos eleitores ao atribuir acontecimentos a candidatos, partidos ou manifestações sem comprovação de vínculo com os fatos apresentados.

A falsa associação do vídeo não significa, entretanto, que não tenham ocorrido incidentes durante a manifestação de domingo. A Polícia Militar de São Paulo relatou episódios de tumulto, pichações e depredação durante a dispersão dos participantes na avenida Paulista.

O Metrô informou que três estações foram afetadas por ocorrências que incluíram danos a placas de vidro, pichações e aplicação de adesivos em estruturas e equipamentos. A companhia também confirmou restrições temporárias de acesso a determinadas estações, adotadas, segundo sua explicação, para preservar a segurança dos passageiros durante a concentração e a dispersão do público.

 

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