Por Regio Andrade, jornalista, pesquisador e bancário
É relativamente conhecida, do círculo de estudos historiográficos ludovicense, a relação do gramático e filólogo Francisco Sotero dos Reis com a Praça da Alegria. Mas, vêm as dúvidas. Onde realmente morava Sotero? Na praça ou nas imediações dela? Quanto tempo morou lá? As respostas a tais perguntas poderiam servir de base para a reabilitação da memória e para a conservação de muitos desses imóveis históricos, preservando e perpetuando nosso rico patrimônio material e imaterial por meio de destinação adequada que se lhes desse. Um exemplo; o Museu Casa de Benjamin Constant, no bairro de Santa Teresa no Rio de Janeiro, que guarda móveis, objetos pessoais, fotografias, indumentárias, obras de arte e documentos do final do século XIX, onde morou o militar Benjamin Constant Botelho de Magalhães, um dos expoentes da Proclamação da República no Brasil.

Em algumas cidades, localizar tais imóveis, ao mesmo tempo em que pode ser simples, também pode não ser tão fácil. Devemos ver dois critérios, que chamaríamos de o da “Voz de Autoridade” e o da “Pesquisa Independente”. A “voz de autoridade” diz respeito a que um evento, por exemplo, a aceitação de que uma casa pertenceu a um famoso escritor, seja algo que venha do passado, já aceito de geração em geração, podendo ter sido resultado de uma investigação correta ou não. Esse critério da “voz de autoridade” funciona quando o pesquisador ou historiador estribou-se em documentação, pois, mesmo que não haja mais o sítio antigo do imóvel, fica mais confiável determinar, em dias atuais, onde ficava. Mas, quando o estudioso se baseia apenas em relatos orais, e ainda mais numa localidade onde não mais existam os nichos mais remotos, o resultado deve ser altamente questionável. Nesse último caso, deve-se aplicar a “pesquisa independente”, ou seja, submeter as “vozes de autoridade” a escrutínio próprio, e com o maior número disponível de meios, procurar corrigir possíveis erros.
E em São Luís do Maranhão? O Centro Histórico de São Luís é considerado o maior conjunto arquitetônico homogêneo de estilo colonial português da América Latina, abrangendo cerca de 220 hectares, com cerca de 3.000 imóveis tombados pelo governo estadual e 1.400 pelo governo federal, por meio do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional-IPHAN. Isso facilita nosso trabalho em relação ao que acontece em outras cidades, pois nosso centro velho está ainda razoavelmente conservado, com imóveis de mesma natureza e sequenciados. Assim, caso falhe aqui a “voz de autoridade”, podemos, por meio de documentação antiga e fazendo estimativas, chegar a um resultado que, se não exato, pode ser o mais próximo possível. Assim, vejamos:

Na imagem acima, publicada por Joaquim Vieira da Luz em “Dunshee de Abranches e outras figuras” (1954), Luz menciona o tempo em que Sotero dos Reis (São Luís 22/04/1800- 16/01/1871) teria morado na Praça da Alegria. Como é um período indefinido, vamos contrastar isso com o que diz Antonio Henriques Leal, biógrafo de Sotero, na obra “Pantheon Maranhense”, de 1873:
“foi esta desaparecendo, até que pouco antes do falecimento dele, teve de vender a casa da rua da Paz, única que lhe restava, e onde residira a maior parte de sua tão ocupada existência”.
Nesse caso, em que há duas vozes autorizadas, uma dizendo que o gramático residiu longos anos no logradouro e outra atestando a Rua da Paz como o sítio urbano onde o intelectual passou a maior parte de sua vida, temos de procurar alguma documentação comprobatória de um dos lados. Assim, vamos recorrer aos almanaques. Em termos mais gerais, um almanaque é uma publicação periódica (tradicionalmente anual) que reúne um calendário detalhado com informações astronômicas, meteorológicas, dados úteis, curiosidades e conteúdos de entretenimento.
No que se refere ao funcionamento socioeconômico e administrativo de São Luís e de outras cidades brasileiras no século XIX, o Almanaque Mercantil, Industrial e Administrativo era uma descrição das pessoas físicas e jurídicas, com suas respectivas atribuições no ciclo político, produtivo e gerencial dos centros urbanos, periferias e zonas rurais. E, com respeito ao ordenamento socioespacial ludovicense em meados do oitocentismo, temos o “Almanaque do Povo”, de 1866, com a nomeação das principais vias de trânsito público, orientação norte-sul e número de quarteirões. Vamos comparar, aqui, dados dos almanaques mercantis, industriais e políticos do Maranhão da década de 1860, quando o núcleo colonial de São Luís e suas periferias estavam já consolidados:

Dados desse almanaque e outras pesquisas feitas em jornais a partir de 1830 mostram que, depois de Sotero deixar a Rua de Nazaré e constituir família, pelo menos até 1863 ele morou na Rua da Paz, em casa própria e com mulher e filhos, o que corrobora Henriques Leal. Por volta de 1867, já viúvo e em dificuldades financeiras, o filólogo habitava imóvel alugado com os filhos, na rua de Santaninha (onde faleceu em 1871), como atestam dados de almanaques de 1867 e 1868:

Assim, se o professor Sotero morou no Largo da Forca Velha (Praça da Alegria), foi entre 1863 e 1867, o que contradiz os longos anos de Vieira da Luz. Agora, o mais interessante: em todos os almanaques que consultamos a partir de 1849 até 1867, não encontramos referência nenhuma de que Sotero dos Reis morasse no Largo da Forca Velha; mas existem registros de que, entre 1863 e 1867, o gramático morava com os filhos no número 08 da Rua do Norte:

De acordo com o Almanaque do Povo, de 1866, a parte habitada da Rua do Norte tinha início na Rua Grande, passava pela frente da Praça da Alegria e terminava nas imediações do atual Socorrão I, tendo entre nove e doze quarteirões. O trecho inicial, que era entre a Rua Grande e o Largo da Forca Velha, hoje é o final da rua de Santaninha. Passemos, agora, a duas listas de décimas urbanas, impostos que, no Brasil Império, consistiam na cobrança de 10% sobre o valor ou o rendimento líquido de prédios e imóveis urbanos “em estado de serem habitados”. As listas de décimas são da Rua do Norte, para os anos de 1865 e 1866, e da Praça da Alegria, para 1866-1867, intervalos de tempo em que, segundo os almanaques, Francisco Sotero dos Reis residiu na Rua do Norte, no numero 08:


O proprietário Viriato Bandeira Duarte aparece tanto como morador da Rua do Norte como do Largo da Forca Velha; logo, conclui-se que ele morava no segundo quarteirão da Rua do Norte, em frente à praça; já o senhor José de Oliveira Santos Junior, dono da casa 08, alugada para Sotero dos Reis, não aparece assistindo no largo. Assim, a casa 08 ficava exatamente no trecho atual entre a Rua Grande e a praça. Nesse trecho, o lado esquerdo, de acordo com nossas pesquisas, era o primeiro quarteirão da Rua do Norte.
Observando o tamanho dos imóveis do trecho entre a Rua Grande e a praça e verificando a quantia paga pela décima urbana, verifica-se que o imóvel que melhor atende às condições é o seguinte:


Poderíamos, também, ter chegado ao resultado da seguinte maneira: nas figuras 06 e 07, o proprietário Antônio Monteiro da Silva surge, ao mesmo tempo, como dono da casa n 01 da Praça da Alegria e n 09 da Rua do Norte. A casa em questão é a que aparece com pichações pretas abaixo de uma das janelas. Logo, a casa em que morava Sotero é a imediatamente anterior, ou seja, a que está indicada por seta.
Assim, Sotero dos Res não morou na Praça da Alegria, mas no número 08 da então Rua do Norte, entre 1863 e 1867, na proximidade imediata do Largo da Forca Velha, casa que fica hoje imediatamente antes da praça, nas esquinas das ruas de Santaninha e Santana. Observa-se em um dos gradis da figura 08, o ano a que remonta a origem do imóvel (1853).
E a casa onde nasceu Sotero dos Reis? Abaixo o inventário de Maria Thereza Cordeiro dos Reis, mãe de Sotero:

Destacados os dizeres: “morada de casas da Rua de Nazaré, fazendo canto para a Rua do Giz”. Entre os dois imóveis possíveis, o que mais se adequa é o seguinte:
