O Maranhão registrou a menor cobertura de mamografias do Nordeste em 2025, alcançando apenas 12,9% das mulheres de 50 a 69 anos, faixa etária considerada no levantamento. O resultado coloca o estado abaixo da média regional, de 22,6%, e da nacional, de 22,1%, além de representar menos de um quinto do patamar mínimo de 70% recomendado pela Organização Mundial da Saúde (OMS).
Os dados fazem parte da nova atualização do Panorama da Atenção ao Câncer de Mama, plataforma desenvolvida em parceria pelo Instituto Natura, Avon, Observatório da Oncologia do Movimento Todos Juntos Contra o Câncer (TJCC) e Instituto Protea. O estudo utiliza informações públicas para acompanhar o acesso aos exames, o estágio em que a doença é identificada e o tempo necessário para iniciar o tratamento.
A situação maranhense também preocupa quando analisado o momento do diagnóstico. Entre 2015 e 2025, 51,8% dos casos de câncer de mama registrados no estado foram identificados em estágios avançados, classificados como 3 ou 4. Isso significa que mais da metade das pacientes recebeu o diagnóstico quando a doença já havia atingido uma fase mais avançada.
A combinação entre baixa cobertura de mamografias e elevada proporção de diagnósticos tardios evidencia dificuldades no acesso à detecção precoce. A identificação da doença em fases iniciais amplia as possibilidades de tratamento e pode reduzir a necessidade de procedimentos mais agressivos.
Na comparação com os demais estados nordestinos, o Maranhão apresentou o resultado mais baixo de cobertura mamográfica em 2025. Ceará e Paraíba registraram 17,8%, seguidos por Pernambuco, com 20,5%, e Sergipe, com 21,5%.
Os índices foram mais elevados no Rio Grande do Norte (24,3%), Alagoas (26%), Bahia (28,8%) e Piauí (32,4%). Mesmo os estados com os melhores resultados permaneceram distantes da meta de 70% utilizada como referência pelo levantamento.
A análise dos diagnósticos tardios entre 2015 e 2025 mostra que o problema atinge toda a região, embora com intensidades diferentes. Sergipe apresentou a maior proporção, com 61,8%, seguido por Paraíba (57,7%), Alagoas (57,4%) e Ceará (55,7%).
O Maranhão aparece em seguida, com 51,8%, à frente de Bahia (48,8%), Piauí (48,4%), Pernambuco (46,8%) e Rio Grande do Norte (40%). Assim, o estado ocupa a quinta posição entre os nove estados nordestinos na proporção de diagnósticos em fases avançadas durante o período analisado.
Considerando exclusivamente 2025, Sergipe registrou o pior resultado do país nesse indicador, com 63,4% dos tumores identificados nos estágios 3 ou 4. No mesmo ano, Pernambuco e Rio Grande do Norte apresentaram percentuais de 34,5% e 35,6%, respectivamente, entre os menores do Brasil.
Para Mariana Lorencinho, gerente de Políticas Públicas pelo Cuidado com a Saúde das Mamas no Instituto Natura, a existência de previsão legal para a realização de mamografias não garante, por si só, que as mulheres tenham acesso aos exames.
“Não basta garantir que a mamografia esteja prevista legalmente: é preciso assegurar que ela chegue às mulheres no território e no tempo adequado em que precisam”, afirma.
A representante do instituto destaca que a baixa cobertura e a elevada frequência de diagnósticos avançados demonstram a necessidade de enfrentar as desigualdades regionais no rastreamento e no acesso ao tratamento.
Outro problema identificado pelo Panorama é a demora entre o diagnóstico e o início da assistência oncológica. A legislação brasileira estabelece prazo máximo de 60 dias para o início do primeiro tratamento após a confirmação da doença, mas os indicadores apresentados pelo estudo mostram períodos superiores a esse limite.
No recorte de 2015 a 2025, o Piauí, apontado entre os estados com melhor desempenho nacional, registrou tempo médio de 95 dias até o início da terapia. Em 2025, Sergipe e Bahia apresentaram médias de 115 e 100 dias, respectivamente, entre os resultados mais elevados do país. O material divulgado não informa o tempo médio específico do Maranhão.
No cenário nacional, 51% dos casos de câncer de mama registrados entre 2015 e 2025 foram diagnosticados em estágios avançados. A cobertura mamográfica também apresentou recuo, passando de 22,8% em 2024 para 22,1% em 2025.
A atualização deste ano passou a utilizar dados do Painel de Oncologia do Instituto Nacional de Câncer (Inca) para os indicadores de diagnóstico e tempo de tratamento, substituindo a base do Registro Hospitalar de Câncer (RHC), considerada defasada. A mudança metodológica permitiu incorporar informações mais recentes sobre a trajetória das pacientes.
Segundo a médica sanitarista Catherine Moura, CEO da Associação Brasileira de Câncer do Sangue (Abrale) e líder do Movimento Todos Juntos Contra o Câncer, o aprimoramento dos dados permite identificar com maior precisão os obstáculos enfrentados pelas mulheres e orientar políticas públicas para reduzir as desigualdades na assistência.
O levantamento também aponta elevada frequência de diagnósticos avançados entre mulheres mais jovens. Na faixa de 20 a 29 anos, 68,3% dos casos foram identificados nos estágios 3 ou 4. Entre as pacientes de 30 a 39 anos, o percentual foi de 61,9%, enquanto na faixa de 40 a 49 anos chegou a 53,7%.
Entre as mulheres de 50 a 69 anos, população considerada no cálculo da cobertura mamográfica, 47,6% receberam o diagnóstico em estágio avançado.
O estudo utiliza a faixa de 50 a 69 anos porque considera o protocolo anterior à ampliação da população-alvo anunciada pelo Ministério da Saúde em outubro de 2025. A atualização das orientações de rastreamento não foi incorporada ao cálculo histórico apresentado pela plataforma.
Os números de mortalidade reforçam a dimensão do problema no Brasil. Entre 2015 e 2025, foram registradas 203.785 mortes por câncer de mama, das quais 21.668 ocorreram somente em 2025, o maior total anual da série analisada. Entre os óbitos daquele ano, 55,4% foram registrados entre mulheres brancas e 43,9% entre mulheres negras.
Para Nira Cará, diretora-executiva do Instituto Protea, os resultados demonstram a necessidade de fortalecer toda a rede de atendimento, desde a investigação inicial até o tratamento.
“É inaceitável que quase metade das mulheres na faixa etária-alvo do rastreamento ainda receba o diagnóstico de câncer de mama em estágios avançados”, afirma.
No Maranhão, o resultado de 12,9% de cobertura mamográfica coloca em evidência a necessidade de ampliar o acesso aos exames e melhorar a capacidade de identificar a doença precocemente. O levantamento não apresenta, no material divulgado, um detalhamento por municípios maranhenses, mas aponta que o estado enfrenta o maior déficit de cobertura entre as unidades da federação do Nordeste.