Alberto Consolaro
Quando nem osso tinha no embrião, o revestimento da boca formou duas lâminas, superior e inferior, em forma de arco em 3D que entram nos tecidos das futuras maxila e mandíbula como se fosse uma faca entrando no queijo fresco.
As duas lâminas do revestimento da boca na sua parte mais profunda, dão origem a 10 brincos duplos como se fossem duas pérolas penduradas. Uma dará origem ao germe decíduo e a outra, ao dente permanente. Estas lâminas celulares desparecem por um processo natural chamado apoptose, como se derretessem.
Ficam apenas duas estruturas no local: o germe como uma pérola e algumas ilhotas remanescentes desta lâmina dentária que desapareceu e ficam em forma de fila de padaria, como um cordão ou guia a orientar o dente no caminho para chegar à boca. Ele liga o germe até a mucosa como um guia ou coleira para os dentes não ficarem desorientados no osso.
OSSO CHEGOU
Quando o osso se forma no local, ele “respeita” estas duas estruturas: 1. A cavidade onde fica o germe chama-se de cripta e, 2. Um canal estreito contendo um cordão de ilhotas epiteliais e futuro guia para a erupção do dente na boca chamado de cordão gubernacular, uma palavra que significa um guia ou mestre. Em latim se diz “gubernaculum dentis” ou o guia do dente.
Em cada maxilar, uma criança quando nasce, tem 10 germes decíduos e 10 permanentes lá embaixo no osso, mas com um guia ou cordão ou coleira para que todos possam ter um trajeto definido a chegar na boca, já que não temos um GPS para os dentes.
Durante o crescimento, se os dentes irromperem de forma desordenada no tempo ou entre si no arco dentário, é porque algo como forças erráticas ou manobras cirúrgicas, desarrumaram os cordões gubernaculares. Ou os dentes aparecem no lugar e tempo errado, ou perdem lugar e o dente fica impactado dentro do osso.
O ultimo dente a aparecer na boca são os caninos permanentes e é comum faltar espaço para ele, ou se localizar de forma equivocada, inclinado ou até deitado, no soalho nasal e até da órbita. Mas, os profissionais sabem prever isto e prevenir!
REDIRECIONAMENTO/TRACIONAMENTO
A técnica de tratamento é o tracionamento dos caninos. Une-se um braquete e um fio metálico à coroa do dente via cirurgia e coloca-se suas pontas na boca para que o profissional possa tracionar via fio metálico, até a boca. Geralmente considerava-se a força para exercer este tracionamento, mas na verdade, este guia metálico é para substituir o cordão gubernacular na função de guiar para o local que o profissional precisa.
Mas, não precisa de tanta força assim, o que se precisa são forças direcionadas para guiar o dente que ficou desorientado sem ou com cordão gubernacular errático. O ideal é chamar esta manobra de Redirecionamento dos Caninos por meio de baquetes e fios metálicos e não de tracionamento, que subentende que o importante é a força e não a sua direção ou manobra. É como estacionar o carro: precisa se movimentar o carro, e o mais importante são as manobras.
Ao escolher redirecionar o canino não irrompido, estamos fazendo as vezes do cordão gubernacular que ficou perdido ou foi perdido por alguma razão. A natureza faz isto com maestria, mas as vezes falha e devemos auxiliá-la a mostrar o caminho que o dente deve seguir. É lindo demais.
REFLEXÃO FINAL
O canino não irrompido e impactado está pedindo redirecionamento e não força para encontrar seu caminho, já que o cordão gubernacular perdeu a direção ou posição. Por ser o último a aparecer no arco dentário, o cordão gubernacular dos caninos pode sofrer vários tipos de fatores externos como extrações dos decíduos, erupção dos dentes vizinhos e falta de espaço para chegar no seu lugar. Mas, “se tivermos um bom motorista a guiar, teremos o canino no seu lugar”. Até rimou!
É como o ortodontista pedir para o canino dançar com ele e com os passos no ritmo, levasse o canino para o seu lugar.Sem força e com muito romantismo no tempo e espaço!
