Selic: economistas veem risco de pausa nos cortes

Selic pode permanecer em 13,75% após reação do mercado à reeleição de Lula. Veja o que economistas esperam da decisão do Banco Central

Fonte: Da redação

A deterioração das condições econômicas após a reeleição do presidente Luiz Inácio Lula da Silva aumentou a possibilidade de o Banco Central interromper o ciclo de redução da taxa Selic nesta quarta-feira (4). A combinação de desvalorização do real, alta dos juros futuros e incertezas sobre a política fiscal levou parte dos economistas a abandonar a expectativa de um novo corte de 0,25 ponto percentual.

O Comitê de Política Monetária (Copom) inicia nesta terça-feira (3) sua reunião de dois dias, com a taxa básica atualmente em 13,75% ao ano. Antes do segundo turno das eleições, o mercado atribuía maior probabilidade a uma redução para 13,50%. A reação dos ativos brasileiros ao resultado eleitoral, entretanto, alterou as projeções para a decisão.

O Itaú Unibanco passou a trabalhar com a manutenção dos juros em 13,75%, em decisão que poderá ser unânime. Segundo a equipe econômica do banco, o ambiente internacional tornou-se mais adverso, enquanto as pressões inflacionárias domésticas e a piora das expectativas exigem maior cautela na condução da política monetária.

A instituição estima que a projeção de inflação do Banco Central para o horizonte relevante da política monetária possa subir de 3,2% para 3,4%. O movimento considera fatores como a valorização do dólar, o encarecimento do petróleo e mudanças nas perspectivas para os preços ao consumidor.

O HSBC também prevê a interrupção dos cortes e projeta a Selic estável até março de 2027. Na avaliação do banco, a ausência de definições sobre as medidas fiscais do próximo mandato e os riscos de aumento das despesas públicas dificultam a continuidade da flexibilização monetária.

A preocupação dos analistas está relacionada à possibilidade de que a deterioração das expectativas provoque pressões mais persistentes sobre a inflação. A desvalorização cambial encarece produtos importados e insumos utilizados pela indústria, enquanto a alta do petróleo pode elevar custos de transporte e produção.

As incertezas fiscais também influenciam os juros negociados no mercado futuro. Quando os investidores passam a exigir remuneração maior para financiar o governo, as condições de crédito tendem a ficar mais restritivas, dificultando a redução das taxas cobradas de empresas e consumidores.

Apesar da mudança de cenário, as projeções ainda estão divididas. Levantamento do Projeções Broadcast com 75 instituições financeiras mostrou que 39 esperam um corte de 0,25 ponto percentual, enquanto 36 projetam a manutenção da Selic. O resultado evidencia que a decisão permanece aberta, mesmo com o aumento das preocupações fiscais.

Entre os economistas que ainda defendem uma redução está Rafaela Vitoria, economista-chefe do Banco Inter. A avaliação é de que a Selic em 13,50% continuaria suficientemente restritiva para conter a inflação, embora o cenário recomende uma pausa nas reuniões seguintes.

Já Felipe de Oliveira, economista-chefe da MAG Investimentos, considera provável a manutenção da taxa atual. Segundo suas projeções, a piora das condições financeiras poderá elevar a inflação esperada pelo Banco Central, reduzindo o espaço para novos cortes.

A avaliação sobre o comportamento da atividade econômica também será determinante. A desaceleração de alguns indicadores favorece a continuidade da redução dos juros, mas a resistência do mercado de trabalho e as pressões sobre os preços dos serviços recomendam prudência.

Além da decisão sobre a Selic, os investidores acompanharão o comunicado do Copom em busca de sinais sobre os próximos passos da política monetária. A principal questão é saber se uma eventual manutenção representará apenas uma pausa temporária ou o encerramento do ciclo de cortes iniciado em março.

A definição será anunciada na quarta-feira (4). Até lá, a possibilidade de manutenção em 13,75% permanece como uma das principais apostas do mercado, sem consenso entre as instituições financeiras.

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