
Segundo Fava Neves, o crescimento do etanol de milho é diferente do boom vivido pelo setor sucroenergético nos anos 2000, quando houve excesso de investimentos e muitas usinas acabaram em recuperação judicial após a crise financeira internacional de 2008. Para ele, o cenário atual é mais sólido porque existe demanda crescente tanto pelo combustível quanto pelos subprodutos usados na alimentação animal.
O professor da USP afirma que o etanol de milho ajuda a interiorizar o desenvolvimento, principalmente em regiões emergentes do agronegócio. Ele cita como exemplo novas usinas instaladas em cidades do Centro-Oeste e do Matopiba, que geram empregos, movimentam a economia local e ampliam o consumo de etanol em áreas onde a utilização do combustível era pequena.
Na avaliação do especialista, o chamado “empoderamento bioenergético” também provoca o que ele define como “carnificação do agro brasileiro”. Isso porque o DDG e o farelo de soja produzidos pelas usinas estimulam a criação de bovinos, suínos e aves, formando um ciclo integrado com biogás, biometano e fertilizantes orgânicos.
Fava Neves acredita que o consumo de etanol continuará crescendo no Brasil nos próximos anos graças à grande frota de veículos flex. Para ele, os carros elétricos ainda não representam ameaça significativa no curto prazo, já que o País ainda deverá conviver por pelo menos uma década com forte presença de motores a combustão e híbridos flex.
Ao comentar a situação da Raízen, o especialista afirmou que a companhia passou por diversificação excessiva e deveria reduzir sua estrutura agrícola própria. Como alternativa, sugeriu um modelo semelhante ao adotado pela Zilor, baseado em contratos de longo prazo com produtores especializados no fornecimento de cana.
Sobre o mercado de grãos, Fava Neves avalia que o Brasil ainda possui entre 10 e 20 anos de expansão pela frente. Segundo ele, a demanda mundial por soja e milho continuará crescendo impulsionada pela urbanização, aumento do consumo de proteínas e avanço dos biocombustíveis, especialmente na China e em outros países emergentes.
Apesar do otimismo em relação ao futuro do agro, o especialista considera que o setor atravessa atualmente um momento difícil, pressionado pelos juros elevados, custos de produção, câmbio e margens apertadas. Ainda assim, acredita que produtores mais eficientes e menos endividados continuarão expandindo suas operações e ganhando espaço no mercado brasileiro.