O aumento acelerado dos custos operacionais já começou a provocar mudanças na malha aérea brasileira. Diante da escalada do preço do querosene de aviação após a intensificação do conflito no Oriente Médio, companhias aéreas passaram a rever projeções, cortar frequências e reajustar tarifas para tentar conter o impacto financeiro nos próximos meses.
Dados do sistema SIROS, da Agência Nacional de Aviação Civil, compilados pela Associação Brasileira das Empresas Aéreas, mostram que a oferta prevista de voos domésticos caiu de forma significativa entre abril e maio.
No início de abril, as companhias projetavam operar 2.193 voos diários no país durante o mês de maio. Em nova atualização realizada em 12 de maio, a previsão caiu para cerca de 2.100 voos por dia, redução equivalente a 93 operações diárias e perda aproximada de 14 mil assentos por dia no mercado nacional.
Com isso, a estimativa total de voos para maio recuou de 67,98 mil para 65,1 mil operações. O volume ficou abaixo inclusive do registrado em maio de 2025, quando o setor realizou 66,3 mil voos.
Os ajustes vêm sendo feitos de maneira seletiva. As companhias preservam rotas consideradas mais rentáveis, enquanto mercados regionais e trechos com menor demanda passaram a sofrer cortes mais intensos.
O Acre aparece como o estado mais afetado, com retração de 14,7% na oferta prevista de voos em maio. Em seguida aparecem Amazonas, com queda de 13,6%; Pernambuco, com 11,2%; Goiás, com 9,8%; Pará, com 9,3%; Paraíba, com 6,3%; e Minas Gerais, com 5,6%.
As projeções do setor indicam que o cenário deve piorar em junho, quando as companhias estimam redução de aproximadamente 121 voos diários na malha nacional.
A principal pressão vem do combustível. O querosene de aviação, que historicamente representa cerca de 30% dos custos operacionais das empresas aéreas, praticamente dobrou de preço desde fevereiro.
A Petrobras reajustou o QAV em 18% no último dia 1º de maio. Antes disso, o combustível já havia subido 9,4% em março e 54% em abril. Somados, os três aumentos acumulam alta próxima de 99%.
No mercado internacional, o preço do querosene passou de cerca de US$ 2 por galão para aproximadamente US$ 4.
O avanço dos custos ganhou espaço nas apresentações de resultados financeiros das companhias aéreas no primeiro trimestre. Embora o conflito tenha começado apenas no fim de fevereiro e ainda tenha tido impacto limitado nos balanços iniciais, executivos do setor já admitem expectativa de pressão mais intensa sobre os resultados do segundo e terceiro trimestres.
A Azul Linhas Aéreas informou redução de 5% na oferta de assentos prevista para maio e junho. Segundo o presidente da companhia, Abhi Shah, a empresa passou a priorizar rotas mais lucrativas, além de adotar aumentos tarifários e ajustes frequentes na capacidade operacional.
O executivo afirmou que, desde o início da guerra, foram realizadas nove campanhas de reajuste de tarifas, contra três no mesmo período do ano passado. Segundo ele, a tarifa média das reservas futuras já apresenta alta próxima de 30%.
A Latam Airlines também revisou suas projeções. A empresa cancelou a meta de expansão de assentos para 2026 diante da instabilidade do mercado internacional de petróleo.
O presidente da Latam Brasil, Jerome Cadier, informou que a companhia reduziu em cerca de 3% sua operação prevista para junho.
Antes da crise, a empresa trabalhava com estimativa de combustível em torno de US$ 90 por barril. Agora, passou a considerar preços próximos de US$ 170 no segundo e terceiro trimestres e US$ 150 no quarto trimestre.
Segundo a companhia, apenas em março o aumento do combustível gerou impacto adicional de US$ 40 milhões. Para o segundo trimestre, a previsão é de gasto cerca de US$ 700 milhões acima do esperado inicialmente.
A Gol Linhas Aéreas também reduziu sua oferta prevista em cerca de 6% para maio e junho, segundo fontes do setor. A empresa não comentou oficialmente os ajustes.
O cenário também preocupa por causa do possível fim da isenção de PIS/Cofins sobre o querosene de aviação, prevista para 31 de maio. A Associação Brasileira das Empresas Aéreas demonstrou preocupação com a decisão do governo federal de não incluir o QAV entre as medidas recentes de contenção dos combustíveis.
A Petrobras informou que continuará oferecendo parcelamento de parte dos reajustes em até seis vezes. No entanto, empresas do setor afirmam que o modelo tem baixa adesão devido às taxas cobradas, consideradas elevadas, próximas de 16% ao ano.
Distribuidoras também demonstraram resistência em aderir ao mecanismo, já que assumiriam risco financeiro em caso de inadimplência das companhias aéreas.