Há mais ou menos seis meses, nós verificávamos se ainda existia, no cemitério do Gavião, o sepulcro de Joaquim Gomes de Farias Veras, pai do escritor Humberto de Campos. Joaquim faleceu em 1892, e nossa curiosidade nos levou à administração da necrópole. Lá, ouvimos costumeiras afirmativas que dificultam o trabalho de qualquer pesquisador: não há registros dessas épocas mais antigas, os livros históricos não podem ser consultados. Ou não se sabe se estão lá ou na antiga Companhia de Limpeza e Serviços Urbanos (Coliseu) Enfim, tem-se de perambular ao acaso e não se sabe se algo será encontrado.
Passando pela primeira seção do local e já frustrados depois de buscas infrutíferas, deparamo-nos com esta velha e esquecida carneira:

Nos dizeres, encobertos pelo lodo, tem-se: Luiz, Francisco e Maria Thereza. Filhos de Francisco Sotero dos Reis. Logo, o foco de nossa busca mudou. O jazigo dos filhos do filólogo, gramático, jornalista e historiador literário Francisco Sotero dos Reis (São Luís, 22/04/1800-São Luís, 16/01/1871) estava à nossa frente. Voltamos aos responsáveis pela gestão do local e de novo as evasivas: não sabiam quem era o responsável pelo nicho, tampouco quem o havia adquirido, sequer quando fora comprado. Com muito esforço, nos disseram ter sido, em 1919, o último sepultamento ali, quando foi inumada Julieta Coelho dos Reis, nora de Sotero dos Reis, e desde aquele distante 1919, a administração municipal conferiu o caráter de perpetuidade ao jazigo. Deixando a “cidade dos mortos”, fomos para casa e iniciamos alguns levantamentos.
Sotero dos Reis foi casado com Anacleta Cândida Compasso, e com ela teve pelo menos quatro filhos: Luiz Augusto dos Reis, Francisco Sotero dos Reis Junior, Américo Vespúcio dos Reis e Maria Thereza dos Reis. Como, no túmulo, havia, “Luiz, Francisco e Maria Thereza”, descobrimos: os restos mortais de Reis Junior foram ali depositados em 1877; Maria Thereza dos Reis na década de 1930, já nonagenária, cujos despojos foram transferidos de uma catacumba da sexta seção; e Luiz Augusto dos Reis entre julho e agosto de 1868.Logo, isso faz do jazigo um dos mais antigos do cemitério. E nos indagamos: teria sido ali o sepultamento, em 1871, de Francisco Sotero dos Reis? Em mais uma ida à necrópole de São Pantaleão, nada nos informaram e disseram não saber onde estavam os assentos mais remotos. Na Santa Casa de Misericórdia, que vendia os bilhetes de sepultura no século XIX, a provedoria e administração informaram ser incerto o destino do acervo antigo.
Então, tivemos de recorrer a jornais já digitalizados, da década de 1870; encontramos uma campanha de arrecadação de fundos para que se fizesse uma lousa (lápide) para o túmulo. Entre os tipos de nicho no Gavião, estão as catacumbas, na parede, e os jazigos mais simples, de uma só gaveta, como a da família de Sotero dos Reis. Se a campanha buscava arrecadar fundos para fazer uma lápide para o túmulo, fica mais plausível supor que o local de enterramento do gramático era um jazigo do mesmo tipo apresentado no começo deste relato. Além disso, de acordo com a obra “Pantheon Maranhense”, de Antonio Henriques Leal, o corpo do filólogo e gramático foi levado, em meados dos anos 1870, para a Capela Mortuária de Nosso Senhor dos Passos, na Igreja do Carmo. Em outubro de 1919, faleceu Americo Vespúcio dos Reis, e algumas semanas depois, em novembro, sua esposa Julieta dos Reis. Se, como já dissemos, a perpetuidade foi conferida, pela administração municipal, quando do enterro de Julieta, isso significa que a família de Sotero vinha, desde a aquisição do local junto à Santa Casa, na década de 1860, pagando as prestações pelo nicho e que a morte de Américo Vespúcio, inumado em local desconhecido, transmitiu a propriedade do túmulo, como hereditariedade, para a viúva.

Assim, juntando-se os fatos do traslado de Sotero dos Reis para a Igreja do Carmo ainda nos anos de 1870, o enterro de seu filho Sotero Junior no túmulo em 1877, a questão da hereditariedade e perpetuidade do jazigo e a campanha de arrecadação para a construção de uma lápide, podemos dizer, mesmo sem o apoio da administração da necrópole e da Santa Casa, e com relativa certeza, que foi no jazigo apresentado e desgastado pelo tempo, o nicho em que foi sepultado Sotero dos Reis em 16/01/1871. O cortejo fúnebre, saindo da residência do intelectual, na rua de Santaninha, por volta das 17h, chegou quase ao anoitecer ao então cemitério São José da Misericórdia (Gavião ou São Pantaleão). Sobre o jazigo, o teatrólogo Artur Azevedo escreveu:
Sotero calou-se para sempre; não há silabadas que o despertem no seu túmulo do Gavião; o largo foi ajardinado, é hoje uma das praças mais bonitas do Norte, e deram-lhe o nome de João Lisboa. É ali que deve ficar a estátua do grande maranhense. (A Palestra, em O Paiz, Rio de Janeiro, 14/12/1903).
No trecho acima, Artur Azevedo fala de uma homenagem pública que seria feita com a ereção de uma estátua de Sotero no Largo do Carmo, o que nunca ocorreu. A homenagem só viria em 1928, depois de mais de 50 anos, quando os últimos corpos materiais de Sotero dos Reis foram retirados da Igreja do Carmo e colocados sob o monumento, inaugurado originalmente em 22/04/1928, em frente ao Palácio Episcopal da Igreja da Sé, monumento chamado de “estela de Sotero dos Reis”. Esse monumento sofreu, no governo do prefeito Costa Rodrigues (1948-1951) dois deslocamentos: primeiro, para a frente do prédio do Palácio do Comércio, e depois, para o local onde hoje fica o estacionamento de veículos em frente à Igreja de Nossa Senhora da Vitória (Sé). Para quaisquer dúvidas, consultar o link https://jornalpequeno.com.br/2026/10/04/um-monumento-tres-prefeitos-quatro-lugares/

De acordo com Joaquim Viera da Luz, em sua obra “Dusnhee de Abranches e outras figuras”, de 1954, a estela se encontrava, nesse ano de 1954, no depósito da Prefeitura; ainda segundo Vieira da Luz, notícias do jornal “O Imparcial”, de 28 abril de 1954, atestavam que e o Instituto Histórico e Geográfico do Maranhão-IHGM- acertara, em abril de 1954, com o então prefeito Eduardo Viana Pereira, a realocação do memorial, na Praça da Alegria, no mesmo ano de 1954, o que nunca ocorreu devido à exoneração do prefeito pelo governador. Dados, de junho de 1953 a junho de 1954, do livro-caixa da Prefeitura de São Luís, obras executadas no adro da catedral entre junho e outubro de 1953 e a figura da estela no livro “Igrejas e Sobrados do Maranhão”, de 1953, apontam que foi o médico chapadinhense Otavio Vieira Passos quem removeu a estela de sua terceira localização (atual estacionamento da Sé) para o depósito municipal, entre junho e começos de outubro de 1953. Passos governou São Luís de janeiro de 1952 a começos de outubro de 1953.



Voltando ao jazigo de Sotero no Gavião, é preciso lembrar que, no ano passado, a Justiça, por meio da Vara de Interesses Difusos e Coletivos de São Luís, condenou o Município de São Luís e a administradora do Cemitério do Gavião, “Empreendimentos São Marcos”, pelas demolições, ocorridas entre 2018 e 2020, de dois jazigos: nº 16Q da primeira seção (família Vilhena) e da família Colares Moreira, quarta seção. A demolição destruiu pedras lavadas portuguesas, com inscrições dos sepultados, datas de enterramento e elementos artísticos típicos do romantismo oitocentista do século XIX.A demolição foi praticado sem estudo prévio, em área de tombamento estadual e municipal, incluída na Zona de Preservação Histórica (PH), representando lesão ao patrimônio histórico e cultural de São Luís. Assim, espera-se que a carneira de Sotero possa resistir não só ao tempo, mas também à agressão institucional. O jazigo encontra-se entrando-se na necrópole e percorrendo-se a rua principal, dobrando-se a primeira à direita e seguindo-se direto, olhando-se sempre para a direita.
E o túmulo de Joaquim Gomes Veras, do qual falamos no início desta história? Descobrimos, não pelo Cemitério do Gavião ou pela Santa Casa, que o corpo do pai de Humberto de Campos foi trasladado para o Cemitério da Igualdade, necrópole também do século XIX, em Parnaíba, Piauí.